LOS – Capítulo 58

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Capítulo 58:

~Praia~

 


 

“Dois valem mais que um.”

— Uma Memória dos Antigos

 


 

***Espanha***

***Magnus***

 

 

Atravesso a porta e sigo Tina ao seu domínio. Sely está bem ao meu lado, em um vestido branco que parece simplesmente deslumbrante nela. Se dependesse de mim, eu nunca a soltaria.

O que me aguarda é bastante surpreendente. Não há nenhuma mansão glamorosa, nenhum castelo enorme, nem mesmo uma vila! Estou de pé em uma praia aparentemente sem fim com um oceano à minha esquerda e, a uma generosa distância longe da praia, várias casas à minha direita. Na praia há cerca de duas dúzias de Antigos que estão ocupados preparando um churrasco, enquanto mais estão se divertindo com o decorar da praça pavimentada localizada entre as casas e a praia.

Levanto minhas sobrancelhas, me perguntando se valeu o esforço de me arrumar como um pinguim. “Talvez eu devesse ter escolhido meus calções de natação? Por falar nisso, belo efeito como o oceano e a praia. Vocês estão dobrando as bordas da sua berlinde de realidade?”

Tina sorri, mas não responde. Hatlix me segue através da porta e me dá um tapinha nas costas. “Efeito legal, não é? Eu mexi com os detalhes por mais de um ano. As sutilezas matemáticas do feitiço são realmente complicadas. Mas o resultado final definitivamente valeu a pena.”

Sely levanta ambas as sobrancelhas. “Você criou essa berlinde de realidade para os Rhondu?”

“Do que você tá falando? Eu a criei para a Cecília e sua família, de quem gosto muito.” Ele ri e acena sua mão para um dos Antigos na praia. “Hey, Jenn! Vejo que ainda está viva. Como está indo com o seu marido?”

A pessoa em questão cerra seus olhos e inicia uma tirada. “Eu ouvi que você não tinha chutado o balde, mas não quis acreditar. O pensamento de ter você descansando pacificamente sob dois metros de terra é muito mais confortável…

Ela continuou com as quezílias, mas eu parei de escutar quando se tornou claro que ela não era hostil. Apesar de suas palavras, seu tom não era ameaçador.

Os outros nos seguem através da passagem e Cecília se apressa para alcançar o Hatlix. Ultimamente, eles têm gasto bastante tempo juntos.

“É uma pena que a Eva tenha recusado quando convidei ela para o nosso casamento. Ela agiu como se eu quisesse trazê-la ao seu próprio funeral” resmunga Sely, claramente desapontada.

Eu suspiro. “Nosso povo tem uma certa reputação pela violência. Não é de se espantar que ela não queira arriscar caminhar entre mais de cinquenta Antigos. Ela confia em nós para não feri-la em um ataque de raiva, mas ela claramente não estende sua confiança a outro clã.”

Oilell aparece na nossa frente, um prato com costelas em sua mão. “Ela é só uma frangote. Olha pra mim! Eu não sou uma Antiga, mas estou perfeitamente bem em caminhar entre vocês.”

“Ladra!” Um Antigo no churrasco berra. Ele pega um enorme espeto e corre em nossa direção.

“Oops. Parece que minha presença não foi anunciada. Irei me retirar, Mestre.” Oilell embaça e uma trilha de pegadas aparece, indo na direção da praia.

Sely limpa sua garganta: “Sua habilidade me espanta toda vez, não importa o quão frequentemente eu veja. Nessa velocidade, eu esperaria deslocamento de ar ou algo similar. Mas olha, ela nem levantou areia. É como se ela completamente desafiasse a física.

Eu limpo minha garganta. “Eu não acho que seja tão fácil assim. Ela não está só se movendo a uma velocidade incrível. Oilell claramente ativa algum tipo de magia quando acelera. Infelizmente, ela nunca me contou seu segredo, mas tenho a suspeita de que ela está de algum modo acelerando seu próprio tempo criando uma bolha de tempo-espaço em miniatura em sua volta. Está relacionado às berlindes de realidade, apenas uma aplicação diferente. Se pode dizer que ela tem sua própria versão de um motor de dobra. A bolha é a razão de ela embaçar quando começa a se mover.”

“Pensei que Oilell fosse serva da nossa família. Você não pode apenas ordená-la a lhe contar o truque?” pergunta Annia atrás de nós.

Eu rio. “Ela pode ser uma serva, mas não é uma escrava. O contrato claramente permite a ela liberdade o suficiente para ter seus próprios segredos e tomar suas próprias decisões. Oilell evade cada pergunta sobre suas habilidades ou o paradeiro de sua raça. Eu também acho que ela pode encerrar seu relacionamento com minha família a qualquer momento que queira.”

O Antigo enfurecido com o espeto alcança nosso grupo e é interceptado pela Tina. Nós deixamos para ela informar seus membros de clã da presença da Oilell.

Enquanto isso, Cecília continua a nos apresentar a todos. Rapidamente se torna claro que Hatlix é uma pessoa bem conhecida entre os Rhondu. Eles o tratam como um convidado de honra.

Nós os seguimos e gastamos o resto do dia nos deslocando de um lado para o outro entre a festa na praia e a praça. Há cerveja, vinho e comida, então como como um cavalo e tento esquecer sobre todas as nossas preocupações.

Quando há alguns momentos quietos, procuro pelo vovô e pergunto a ele o que se passa com os Rhondu. “Vovô, por que você conhece eles tão bem? Eu nunca ouvi de você ter conexões tão boas com os outros clãs.”

Hatlix suspira e vira sua atenção para mim. Ele estava engajado em devorar um prato de frutos do mar. “Isso é tudo um pouco complicado e vai até a época em que sua avó estava viva. Não tem jeito, então ao invés de te entediar com cada detalhezinho, vou te dar a versão resumida. Eu não fui sempre um Bathomeus.”

Ele fica em silêncio por alguns momentos, coletando seus pensamentos. “Muito tempo atrás, eu era mais como um espírito livre. Eu vagava bastante e pesquisava a arte de encantamentos, coletando artefatos por todo o mundo. Era uma vida agradável, e mais importante, livre. Em uma das minhas aventuras, conheci a Cecília e Juliet. Elas estavam procurando por um artefato lendário, então já que compartilhávamos o mesmo objetivo, juntamos forças.”

Limpando sua garganta, ele continua: “Uma coisa levou a outra e acabei junto com as duas. As duas eram bem, legais, e eu as amava. Se alguém me pedisse para escolher uma, eu não conseguiria. Nós viajamos bastante e fizemos todo tipo de coisas juntos. Como criar essa berlinde de realidade. Por muito tempo tudo parecia bem, já que a Cecília a Juliet eram muito boas amigas.

“Mas no final a Juliet não podia lidar com um relacionamento entre três pessoas. Acho que alguém sempre tem que acabar com a vara curta. No nosso caso, era a Juliet e ela não podia aguentar. Juliet ficou cada vez mais ciumenta e quando ela engravidou, a Cecília decidiu se afastar. Eu suspeito que elas tenham feito um acordo de que quem quer que engravidasse primeiro poderia me ter.

Ele suspira: “ A Cecília retornou ao seu clã, os Rhondu. Eu fiquei com a Juliet porque eu também tinha que assumir responsabilidade pela criança. Então me tornei um Bathomeus. Mas não ache que eu não amava sua avó. Partiu meu coração quando ela foi morta em um conflito com os fae. Foi uma daquelas batalhas estúpidas muito tempo depois da guerra. Eu também fui ferido por aquela flecha.

“Fiquei de luto por ela por anos. A Cecília visitava frequentemente, mas nunca retornamos aos velhos tempos.” Ele acena sua mão em um gesto de desamparo. “Eu não era exatamente eu mesmo com aquela coisa dentro da minha cabeça. E a Cecília se tornou a chefe de seu clã, então tinha seus próprios problemas e responsabilidades. Eu só espero que ela não retorne aos seus antigos deveres. Ter ela por perto é bastante prazeroso, se entende o que quero dizer.”

Dou um sorriso afetado. “Todo mundo sabe. Ei, por que não pede para ela se casar com você e então podemos ter um casamento duplo?”

“Essa é uma excelente ideia! Eu vou pedi-la agora mesmo.” Ele se levanta de seu assento, abandonando sua comida, e caminha para longe em busca da Cecília.

Espera.

O quê?

Para.

Eu falei isso como uma piada! Tento seguir o Hatlix, mas um certo alguém segura minhas roupas.

“Deixa ele ir. É a escolha própria dele se vai pedi-la ou não.”

Eu me viro para Sely. “Como você adivinhou meus pensamentos? E eu não quis dizer aquilo!”

Ela sacode sua cabeça e dá de braços comigo. “Eles querem começar a cerimônia. Hatlix e Cecília são adultos, então deixe eles por conta própria. Sely me guia de volta à praça onde os outros estão aguardando.

Tina está de pé na frente do círculo mágico, que concordamos que não ativaríamos. Tento não arruinar o momento dizendo algo estúpido, então simplesmente sigo a Sely e piso no círculo com ela. Como a líder do clã da noiva, Tina é quem realiza o ritual. Ela começa a recitar as palavras antigas nos tons guturais da primeira linguagem.

Eu já temo o momento que terei que realizar tal cerimônia. Uma cola não seria uma ideia tão ruim. Minha mente começa a vagar enquanto a Tina fala sobre amor eterno e a fusão de dois corações. Como se eu fosse precisar de tal prova. Sely já é minha parceira perfeita. Eu não preciso de magia para me certificar disso.

O que se parece com uma eternidade passa antes da Tina finalmente terminar seu discurso. Retornando ao normal Akkadiano, ela me pergunta: “Vocês desejam proteger um ao outro até a morte?”

“É claro” respondo, enquanto a Sely responde com: “Sim!”

É inacreditavelmente satisfatório ter terminado essa cerimônia. Ainda mais agora que me dirigir à Sely como minha esposa é finalmente uma coisa apropriada. Eu não escuto realmente a Tina quando me viro para Sely e a beijo, abraçando-a. Ela brinca com meus lábios e envolve seus braços em torno da minha cabeça.

Nossas línguas se tocam, há uma repentina descarga de eletricidade e sinto energias mágicas ondulando em nossa volta, através de nós. A parte lógica do meu cérebro me diz que devemos parar de nos beijar e descobrir o que está acontecendo, mas o lado animalesco não quer soltar minha esposa. O tempo parece chegar à uma parada rastejante e o momento se estende para sempre!

Ela é minha.

Ele é meu.

Não, Sely é uma ela! Magnus é um ele!

Qual o problema com os meus pensamentos? Eu não pensei isso.

Silêncio, minha maldição fez alguma coisa! Oh, sim! A maldição.

Sely? Magnus? Espera, não, a maldição se ativou?

Isso é ruim! Acho que ela se ligou a você, Magnus! Merda, não!

‘Não se preocupa! Acho que pode ser uma coisa boa.’

Finalmente consigo discernir meus próprios pensamentos daqueles da Sely. Me concentro. ‘Por que isso é uma coisa boa?’

‘Por que é isso que o laço de casamento deveria fazer! Talvez eu finalmente fique livre.’ Os pensamentos dela ecoam pela minha mente.

‘Então o que eu deveria fazer?’ pergunto.

‘Apenas não interfira com a magia selvagem e me beija’ sugere ela.

Isso é algo que ela não precisa me dizer duas vezes, então na verdade fico desapontado quando a magia selvagem se dispersa como se nunca houvesse existido. Nossos lábios se separam e levanto os olhos, descobrindo que os convidados da festa fugiram em todas as direções. O calçamento está brilhando em vermelho em um raio de dois metros em nossa volta. Está quente como o inferno e sinto como se estivesse dentro de um forno! Praguejo quando noto que as solas dos meus sapatos estão derretendo! Pego a Sely nos braços e corro para longe da área.

“O que aconteceu? pergunto, estudando a pequena zona que foi queimada à cinzas.

“Acho que minha maldição te reconheceu como meu marido. Do contrário você seria uma pilha de cinzas.” Sely dá risinhos, alegre. “Você sente a magia entre nós? Acho que a maldição se tornou uma benção.”

Engulo em seco e tento investigar minha própria magia. “Apenas sinto que algo mudou. Me sinto mais poderoso.”

“Assim como eu. E sinto vontade de fazer outra coisa.” Sely beija meu pescoço, o que realmente não parece tão ruim.

“Vocês dois estão bem?” pergunta Tina. Ela e os outros voltaram para o nosso lado quando se tornou claro que não somos mais vulcões mágicos.

Ponho a Sely no chão e dou de ombros. Ela responde por mim. “Eu não sei o que aconteceu, mas me sinto melhor que nunca. Talvez ajudaria se vocês nos dissessem o que viram.”

Tina abre suas mãos: “Eu não sei. Vocês se beijaram e magia selvagem envolveu os dois. O poder irrompeu para fora e ficou insuportável ficar nos seus arredores. Vocês dois definitivamente deveriam tentar descobrir o que há de errado com sua magia.”

Eu assinto. “É claro. Nós faremos isso depois que resolvermos todos os nossos outros problemas!”

Tina bufa e suspira ao ver o dano que causamos ao círculo mágico. “Hatlix, Cecília, o que vocês dois acham de um casamento às antigas na praia? Podemos usar a areia para moldar um círculo improvisado.”

Oh? Então eles vão se casar também?

Um dos Rhondu levanta sua mão. “Nós temos bastante metal no depósito. Eu vou lá pegar.” Ele corre rumo às casas.

Olhamos em volta e procuramos pelo segundo casal, mas não estão em lugar nenhum. Tina pragueja. “Cadê eles?”

Em um borrão de cores, Oilell aparece ao lado da Tina, apontando um espeto com um pedaço de carne para algumas árvores. “Eu checaria por ali. Os arbustos estão se movendo estranhamente.”

 


Ei, se estiverem gostando do projeto e desejarem ajudar um pouco, vocês podem fazer isso acessando o link abaixo, solucionando o Captcha e aguardando dez segundos para ir à nossa página de agradecimentos.

Podem acessar por aqui.


Tradução: Batata Yacon   | Revisor: Delongas


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