LOS – Capítulo 52

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Capítulo 52:

~Partida~

 


“Uma guerra mágica não é sobre enfrentar o inimigo pessoalmente. É muito diferente de lutar um duelo.”

— Uma Memória dos Antigos

 


 

***Fada***

***Magnus***

 

A sala do trono está em grande parte vazia e há apenas uma única entrada. A parede esquerda é um enorme fronte de vidro que permite a passagem de bastante luz. A parede à minha direita está coberta por uma enorme imagem. Ela mostra um sangrento campo de batalha entre fae e outros sobrenaturais. Não só Antigos, mas cada espécie sobrenatural que conheço. O que é estranho sobre a representação, é que os Antigos estão parados nos fundos enquanto os outros lutam. Terei que perguntar ao vovô sobre isso.

No outro lado da sala há um enorme trono de madeira com Inverno sobre o mesmo. Ele segura o orbe em suas mãos e o estuda com uma expressão enlouquecida em sua face. Toda a cena me lembra bastante do Gollum de Senhor dos Anéis. A diferença é que esse fae não é um metadilhozinho fracote.

Eu lentamente me aproximo do trono, tomando grande cuidado em ser tão quieto quanto possível.

Inverno levanta o orbe sobre sua cabeça e faíscas azuis cintilam pelos seus braços e corpo. “Eu usarei isso para criar um exército como nunca visto antes. Eles não terão escolha senão se curvar frente à mim. Eu não entendo porque os antigos permitem que algo assim apodreça em seus porões! Nunca senti tanto poder bruto!”

É, ele perdeu totalmente a cabeça. Embriagado em magia. Me pergunto porque ninguém ensinou a ele que canalizar tanto poder assim fode o cérebro. Mas de novo, talvez ele simplesmente não se importe nessa idade. Talvez esteja disposto a apostar tudo em um último feitiço?

De um momento para o outro, o comportamento de Inverno muda. Ele puxa o orbe ao seu peito, embalando-o como o item mais importante do mundo. Seus olhos vasculham a sala. “Quem está desrespeitando minhas ordens? Mostre-se! Agora!”

Seus olhos vagantes me dizem que ele pode ter sentido minha presença, mas não sabe onde estou.

Inverno sacode sua cabeça e levanta uma mão, apontando sua palma para mim. Um enorme sincelo dispara e eu mergulho para o lado. O sincelo se afunda na parede e eu me ponho de quatro, impulsionando-me para frente. Faço tudo que posso para continuar em movimento.

Inverno salpica toda a área com sincelos. Está claro que ele tem uma ideia brusca da minha posição. Eu não sei como ele está fazendo isso, mas ele é bom.

“Já chega!” Inverno pula de pé e uma onda de poder emana do orbe, me jogando para trás.

Aterrisso com força e faço o meu melhor para não grunhir. Permaneço completamente em silêncio e me concentro em controlar meu corpo. Deve haver algo que acionou os sentido do Inverno. Ele não pode me ver, então foi som? Ou cheiro? Se for o último, não posso fazer nada a respeito.

Fechando meus olhos, me concentro em meus batimentos cardíacos. Bem devagar, ele desacelera. Meu coração para de bater com suas típicas batidas erráticas. Ao invés disso, inicia um lento, ritmo contínuo. Isso é menos efetivo, mas também menos barulhento. Mantenho-me absolutamente imóvel e me imagino como nada mais que um grão de pó.

Inverno fica de pé e escarnece em voz alta. “Eu sei que você está aqui. Me diga quem te enviou e posso te deixar viver. Foi Verão? A vadia quer ficar no topo. Ela sempre manda passarinhos ou bichinhos para me espionar. Mas não com Inverno!”

Ele lentamente caminha até o ponto onde atirou em mim. “Mas admito que fae invisíveis são um grande salto, até mesmo para ela. Como você fez isso?” Ele se vira, procurando.

Mantenho-me absolutamente imóvel. Há vários métodos diferentes de caça. Um deles é se esgueirar despercebido, permitindo que a presa se aproxime por conta própria. É uma técnica efetiva com animais ariscos que têm bons sentidos.

Inverno vasculha a sala e dá um passo adiante. “Você não pode se esconder!” Ele se vira e dispara um sincelo através de uma das janelas, entregando que não tenho a menor ideia de onde estou. Eu cuidadosamente alcanço meu bolso e jogo um dos meus dados no trono.

Ele tilinta e Inverno pula para longe do som, disparando outra tempestade de sincelos. O feitiço despedaça uma enorme parte do trono e danifica a parede atrás do mesmo.

O último salto o trouxe ao meu alcance. Abro meus olhos e puxo meu kerambit de seu coldre em meu ombro. Então agarro seu tornozelo e enfio a lâmina nas costas de seu joelho. Ele berra e rodopia, soltando a faca. Ele dispara outro feitiço, mas a perda de equilíbrio faz seu tiro passar longe.

Levanto minha perna e chuto o orbe para longe de suas mãos. Ao invés de tentar recuperar o orbe, ele faz a coisa esperta e me raja com tudo o que tem. Pelo menos, a área onde ele assume que eu esteja. Eu mudei de posição assim que aleijei sua perma.

O chão e paredes imediatamente congelam e a água no ar se condensa em uma espessa névoa de cristais de gelo. A temperatura da sala cai vários graus, criando uma atmosfera ártica.

“Cumprimentos, Inverno!” Sopro em sua orelha e ele gira, dando à minha faca a oportunidade de cortar profundamente sua garganta.

Puxo minha segunda faca e a enfio no lado esquerdo de sua barriga, então o abro como um animal. Suas entranhas espirram e imediatamente congelam ao tocar a camada de gelo que ele criou.

Ele levanta suas mãos e me lança uma rajada de gelo, mas lhe dou um soco na cara. “Oh, isso foi melhor do que esperei! Você tem que treinar seus reflexos instintivos. Socar é sempre mais rápido que uma invocação quando se está tão próximo.”

Após um curto momento de consideração, removo a invisibilidade e adiciono: “Mas faça isso na sua próxima vida. Acredito que você esteja no fim da estrada.”

Inverno tenta se pôr de pé, mostrando que bastardo tenaz ele é. Com uma mão ele tenta impedir o sangue em sua garganta, enquanto com a outra, tenta enfiar suas tripas de volta na barriga. Ele me olha com seus olhos arregalados. Sua boca se abre e derrama sangue.

Eu sorrio e lhe soco de novo, lançando-o de volta ao chão. Assobiando, limpo minha segunda faca e a coloco de volta em sua bainha. Os ferimentos de Inverno já estão se curando, então uso minha kerambit para cortá-lo um pouco mais. Eu preciso de mais tempo.

“Não muito diferente de matar galinhas” resmungo enquanto corto os tendões dos braços e pernas de Inverno. Isso me lembra das vezes que me treinei para não sentir nada matando seres vivos. “Mas acho que nunca me acostumo com o cheiro. Por que é que todo mundo caga as calças no final?”

Agarro Inverno pelas roupas e o puxo para seu trono, criando uma longa trilha de sangue e tripas. Um chute me livra do trono de madeira. Eu quero criar uma cena adequada para celebrar o fim do Inverno. Um gesto ao orbe o traz voando em até minha mão. No segundo que o toco, poder preenche todo o meu ser. Franzo e estudo o artefato em busca de danos. Não há nenhum até onde posso dizer.

Só alguns arranhões na sua superfície, mas eu mesmo fiz esses há muito tempo atrás. “Hatlix sempre insistiu em colocar instruções nos seus artefatos.” Balanço o orbe no Inverno para que ele possa vê-lo. “Me deixa feliz eu ter raspado elas.”

Suporta Inverno contra a parede de madeira. “Deixe-me lhe mostrar como usar o orbe. Você queria um exército. Permitirei que seja seu primeiro soldado.”

Inverno sacode sua cabeça, mas não me importo. Seguro o orbe fortemente em minha mão esquerda e canalizo seu poder no corpo de Inverno, formando uma matriz de feitiço única. É bastante similar ao feitiço de fusão que encontrei na fazenda. Eu não sei o bastante de biologia para fazer funcionar com matéria viva. Mas meu conhecimento sobre magia de morte está claramente acima da média. Houve um curto período após a morte de meus pais em que passei dos limites. Estudei artes necromânticas e as utilizei para punir meu tio e seus capangas. Em algum lugar dentro de mim, tive esperanças de encontrar um meio de ressuscitar meu povo. Por sorte, percebi a tolice de tais sonhos após um tempo.

Os olhos de Inverno se arregalam enquanto seu corpo se funde com a parede e grilhões espinhosos o prendem em posição. Seus olhos começam a emitir uma luz verde e ele resiste em vão. Pressiono minha mão em sua barriga para cobri-la em sangue e começo a escrever um texto rúnico em seu corpo.

Após um tempo, recuo e admiro meu trabalho. Oh, a câmera! Rapidamente checo o dispositivo.

Ufa! Estava gravando. Teria sido um fracasso se eu não tivesse a batalha contra o chefão gravada.

Então me afasto da corrupção crescente que tem Inverno como seu centro. Me virando, canalizo o poder do orbe e formo uma nova matriz de feitiço, rasgando a realidade de Fada e abrindo uma fenda de energia azul na minha frente.

Curvo os cantos de minha boca para baixo quando percebo que não acertei completamente em cheio. Manusear o poder do orbe nunca é fácil. “Isso vai doer!” Atravesso a fenda.

 

***Fada***

***Jardineiro***

 

Eu sapateio pelo corredor. Estou feliz, ainda assim não estou. Alguém explodiu algumas árvores na minha floresta. Isso é ruim. As mulheres também estão mortas. Isso é bom.

Ele também explodiu uma das árvores fabulosas. O invasor poderia ter sido um pouco mais bondoso e causado menos danos colaterais. Acho que ver o que os fae fazem com as mulheres de outras raças não foi bem recebido pelo Antigo.

Pelo menos o Antigo decidiu dar uma olhada no que os fae estão fazendo em Fada.

Passo em volta de um dos fae zumbificados. Ele deveria estar morto, mas ainda espasma. Me pergunto se essa corrupção é culpa do Inverno, ou se o Antigo decidiu deixar um presentinho em Fada.

Salto por cima de um dos soldados fae que falharam em retomar o castelo. Foi uma enorme surpresa quando perdemos contato com Inverno. Da noite para o dia, seu castelo se tornou um viveiro de todos os tipos de seres corrompidos. Foram necessários os esforços combinados de Verão, Outono e Primavera para forçar a corrupção crescente de volta. Nós tivemos que encontrar um feitiço capaz de combater o encantamento que estava transformando os fae em monstros desmortos.

Se bem que, transformar um fae em um monstro? O Antigo quis pregar uma peça neles? Hmm.

Chego a sala do trono de Inverno e encontro Verão, Outono e Primavera lá dentro. Eles estão de pé na frente de Inverno que está fundido à parede e contorcendo-se como um animal selvagem. Há sangue e entranhas em todo lugar e a barriga de Inverno é uma caverna vazia.

“Ew!” Tomo cuidado para evitar a maior sujeira e me junto a eles. “Inverno não parece saudável. Tão cinzento e gosmento. Não acho que possamos resgatá-lo.”

Eles me olham com o que provavelmente devem ser expressões graves. Primavera gesticula sua mão delicada para Inverno e para a parede. “Ele já está morto. Nós só queríamos saber o que você acha da mensagem.”

Na parede há de fato uma mensagem escrita com o sangue de Inverno. Inclino minha cabeça de lado até ficar em um ângulo impossível e os outros têm que desviar os olhos. O que quer que possam dizer, eles não são muito confortáveis com minha anatomia.

“Fiz uma visita para recuperar minha propriedade. Eu vi o que vocês estão fazendo com as mulheres abduzidas e decidi transformar Inverno em um pequeno experimento. Fiquem em Fada e não saiam. Do contrário nós lhes mostraremos algumas magias de verdade. Isso foi só um pequeno aquecimento para lembrar-lhes como é uma guerra mágica.”

 


Ei, se estiverem gostando do projeto e desejarem ajudar um pouco, vocês podem fazer isso acessando o link abaixo, solucionando o Captcha e aguardando dez segundos para ir à nossa página de agradecimentos.

Podem acessar por aqui.


Tradução: Batata Yacon   | Revisor: Delongas


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3 ideias sobre “LOS – Capítulo 52

  1. Alex

    Foda que só o jardineiro sabe que só veio um antigo e não vários como o “nos” da mensagem indica, agr pq ele deixo o Magnus entrar eu não sei, já que ele deve estar ciente que se os antigos vencerem, ele com certeza não vai ficar vivo pra contar historia

    Curtido por 1 pessoa

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    1. victornorte

      não é uma certeza que o matarão. tem uma chance de mais de 90% diria eu, mas não é 100%. e mais, ele já falou que abomina os atos dos fae e eles próprios. deve ser por isso.

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  2. Thiago Morgado

    Obrigado pelo capitulo
    Não sei como o Jardineiro vai reagir a essa mensagem. Ele quer a guerra e o extermínio dos fae, então essa mensagem deve desagradável para ele

    Curtido por 1 pessoa

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