LOS – Capítulo 37

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Capítulo 37:

~Desconfortável~

 


 

“Não há um único segredo que seja mantido com a intenção de proteger outros.”

— Uma Memória dos Antigos

 


***Caríntia***

***Magnus***

 

— Ela comeu o cachorro daquela pobre senhora! É um desastre de relações públicas! — reclama Eva.

Eu rolo meus olhos: — Sério? Lindwurm como um único mascote e você chama de desastre? E quanto as pessoas que perdemos?

Sua face mostra desagrado doloroso: — Isso também!

Desconsidero o assunto com um gesto.

— Fique feliz que ela não comeu um daqueles voyeurs que vieram assistir o rescaldo da carnificina. Nunca entenderei o porquê de humanos gostarem de assistir locais de acidentes e violência. Lindwurm recebe sua comida numa corda. A coleira do cachorro fez ela pensar que a mulher estava oferecendo uma guloseima gostosa.

— A mulher está no hospital porque teve um infarte! — continua Eva.

Dou risadas: — Isso mal pode ser considerado culpa da Lindwurm. Eu até falei que Lindwurm não é só um bichinho de estimação. Escuta, eu explicarei tudo quando vir aquela repórter estúpida na próxima vez.

Eva cobre seus olhos com ambas as mãos e geme: — É exatamente disso que tenho medo. Eu faço isso. Apenas se certifique de que não aconteça de novo.

— Beleza. Você é nossa mulher encarregada de relações públicas. Faça o que achar necessário — reconforto-a.

Eva assente e deixa a sala. Tenho certeza que ela encontrará o caminho pra fora. Se não, um dos espíritos guardiões estará a seguindo.

Como se eu pudesse prometer que a Lindwurm não fará o que bem entender. Lindwurm não é só um mascote qualquer e certamente não é um cachorro gigante que pode ser treinada para fazer alguns truques estúpidos. Pode parecer que sou eu dando ordens a ela, mas há muita negociação envolvida nisso. A seu próprio modo, Lindwurm é bastante esperta. Ela tem a inteligência de uma criancinha, então entende quando estou dizendo a ela que algo lhe faz mal à saúde.

Lindwurm já comeu o cachorro e nada de mal aconteceu com ela. Se agora eu disser que comer cachorros é ruim, então vou perder credibilidade com ela. Ela pode não me escutar na próxima vez quando for realmente importante. A humana embasbacada que veio assistir a cena é a culpada por ficar lá parada como uma ovelha.

Me reclino no sofá da sala de estar e suspiro. Pelo menos estamos todos de volta em casa.

Cecília se junta a nós com nada mais que um robe de banho. Seu cabelo ainda está molhado após lavar a sujeira e sangue.

— Que refrescante. Já estava com medo que as pessoas desta época não tivessem nenhuma boa luta! E estou orgulhosa de você, Sely. Sua aproximação foi muito mais “direta” do que eu costumava em batalhas, mas você certamente manteve sua posição.

Isso me lembra do porquê eu interferi em primeiro lugar. Me viro para Sely que está sentada no sofá ao meu lado. Ela parece um pouco embaraçada: — Isso! Por que você se juntou a batalha? Você está carregando nossa criança. Eu cheguei bem perto de perder completamente a cabeça quando vi aquilo! Estou tão feliz por você não ter se machucado.

Ela cruza os braços na frente de seu peito e resmunga: — Não está nem aparecendo ainda. Além de um pequeno enjoo matinal, me sinto bem. Você estava atrasado, então decidi oferecer uma mão!

Fiacre segue Cecília até a sala. Ela também se limpou, mas pelo menos teve a decência de colocar algumas roupas casuais. De repente fico bem ciente do fato de estar no mesmo cômodo que três belas mulheres. Okay, duas são um pouco mais velhas que eu, e uma é minha tia, mas quando penso nisso, é bem perturbador.

Me foco em um ponto na parede. Deve haver uma coisa com que eu possa distrair minha mente. Algo como: — Vamos falar de outra coisa. Fiacre e Cecília, vocês não estavam lá, mas na assembleia eu enfrentei e matei Emil.

— Você já nos deu a versão resumida. — Cecília me urge.

— Sim. Durante a luta, eu perdi a cabeça e me rendi à minha raiva. Quando faço isso, minha visão se fecha e minhas habilidades físicas crescem enormemente…

— Ele também fica envolto por uma aura vermelha — adiciona Sely, prestativamente.

Como se eu fosse esquecer de mencionar isso.

— Não estou fazendo isso conscientemente e certamente não estou invocando um feitiço. Tina pensou que eu estivesse usando um feitiço chamado “Berserker”. Ela também tinha a teoria de que eu encontrei um meio de invocá-lo instintivamente, como magia selvagem. E que isso pode ser perigoso se der errado. Vocês têm alguma ideia sobre isso?

Fiacre sacode sua cabeça: — Nunca ouvi de uma coisa dessas. Sempre pensei que você tivesse elaborado o aprimoramento corporal por conta própria. Mas se o que diz é verdade, então você deveria ter pesquisado isso há muito tempo! Estamos falando do seu corpo.

Dou de ombros: — Só acontece quando estou nervoso. E para ser honesto, até agora isso salvou minha bunda em várias situações de vida ou morte. O pensamento de isso poder estar relacionado com magia selvagem nunca me cruzou a mente.

Cecília inclina sua cabeça em ponderação: — É difícil dizer com certeza sem ver de fato, mas minha irmã pode ter exagerado. Pode ser uma habilidade natural sua, destravada pelo tormento que você teve que passar quando seu primo te torturou. Magia natural é bem diferente de magia selvagem. O que tememos, é magia em um estado descontrolado. Muitos não percebem a diferença, mas magia natural não é descontrolada. Podemos tentar analisar na sala de treino.

Me mexo desconfortavelmente no sofá. — Isso pode ser uma má ideia. Eu não fico particularmente racional quando estou naquele estado. E o que você quer dizer com “uma habilidade natural”? Nunca ouvi de uma coisa dessas.

A expressão dela se torna presunçosa: — Esses são os benefícios de se ter uma múmia velha como eu por perto. É extremamente raro, mas nossa espécie é capaz de desenvolver, ou devo dizer, destravar, certas habilidades quando somos expostos a situações extremas. Sei de um cara que pode ler mentes. Ele cresceu com um clã de verdadeiros selvagens enquanto o próprio era bem franzino. Antecipar os pensamentos do oponente e ações era sua única chance de sobreviver.

— O conceito não é tão irracional assim. Considere sua wyrm por exemplo. Uma criatura como ela nunca poderia existir em terra, muito menos ser capaz de voar. Se ela não estivesse constantemente usando magia gravitacional para anular a gravidade, ela seria esmagada pelo seu próprio peso. Ela certamente não está invocando um feitiço tradicional para fazer isso. O corpo dela encontrou um meio natural de canalizar magia para obter um efeito benéfico.

Isso soa melhor que a teoria sobre magia selvagem e muito mais razoável. Se minha habilidade parecesse ser magia selvagem, eu teria feito algo a respeito.

Ela continua: — Além do mais, como você acha que nós, Antigos, desenvolvemos magias e feitiços em primeiro lugar? Nós não simplesmente aparecemos do nada e sabemos todos os feitiços que existem. O mundo nos forçou a estudar e observar para sobreviver. Nós observamos nossas presas e outras criaturas, notando suas habilidades impressionantes. Especialmente criaturas mágicas. Nós também desenvolvemos a habilidade de ler os padrões de energia dessas criaturas. Essa habilidade era bastante útil para caçar no escuro, mas os primeiros feitiços não foram invocados por um Antigo.

— Ao copiar os padrões de energia de outras criaturas, nós aprendemos seus efeitos. Após um longo tempo de estudo e falhas, ganhamos o conhecimento e entendimento de que padrões fazem o quê, e como combiná-los uns com os outros. Foi um aprender fazendo. Então se criaturas mágicas podem desenvolver magias naturais assim, então por que nós não seríamos capazes?

Franzo minha testa, ainda não confiando completamente em sua explicação. — Então por que não há mais casos de pessoas que desenvolvem tais magias naturais, ou uma habilidade, como você diz? E como podemos discernir uma habilidade dessas da versão perigosa de magia natural, magia selvagem?

Cecília faz beiço: — Para a primeira pergunta, não tenho uma boa resposta. Queria que fosse tão simples quanto surrar uma pessoa até estar quase morta para despertar uma habilidade, mas não é. Aparentemente, há uma afinidade inerente para uma habilidade e a situação que força a habilidade a surgir tem que combinar.

— A telepatia que mencionei, ele pode nunca ter desenvolvido sua habilidade caso houvesse caído em um lago e se afogado. A pessoa em questão tem que ser exposta a circunstâncias correspondentes.

— Mas quem quer arriscar a vida por tal coisa? Sem saber como checar a própria predisposição, temos que armar situações extremas às cegas. Com a quantidade de possibilidades que podem causar estresse mental a alguém, apostar a própria vida repetidamente para talvez ganhar uma habilidade não me passa como uma coisa inteligente a se fazer.

Ela sacode sua cabeça e cruza seus braços na frente do peito.

— Também pode haver outros fatores desconhecidos. Eu sou uma bruxa velha, mesmo por nossos padrões, e vi menos de cinquenta pessoas com uma genuína habilidade em toda minha vida. Eu mesma estive em mais de uma situação de vida e morte, e não tenho uma habilidade. Nenhum Antigo jamais morre uma morte agradável, então só isso já me diz que os requisitos para se obter uma habilidade devem ser muito situacionais.

Sely inclina sua cabeça: — Mas você não conversou com essas outras pessoas? Não há similaridades em como eles desenvolveram suas magias naturais?

Cecília sorri: — Não é como se eles houvessem me dado uma história detalhada de suas circunstâncias. Quem iria querer que outros ganhassem o mesmo poder? Eu não seria capaz de confiar no que eles me contassem.

Por um momento ela apenas fica lá, considerando suas próximas palavras.

— Por outro lado, discernir magia natural, ou em outras palavras, uma habilidade, de magia selvagem é razoavelmente fácil.  Nós só temos que chegar perto de você enquanto a está usando. Se a matriz de feitiço estiver contida no seu corpo, então é magia natural, se estiver fora, então é magia selvagem.

Ela limpa sua garganta:

— O ponto importante sobre magia selvagem é que uma magia de feitiços funcional é formada sem nenhuma forma de contenção. Uma vez que se desenrede de modo descontrolado, os efeitos se tornam igualmente incontroláveis e imprevisíveis. Isso não acontece se a magia estiver contida dentro de si próprio, ou dentro de um objeto.

— Acho que ter um ancião por perto não é tão ruim afinal. Apesar de ainda haver a questão de eu me sentir desconfortável em testar minhas circunstâncias sem alguém que mereça minha raiva. Quando perco o controle, eu faço isso literalmente, com uma bruma de vermelho na frente dos meus olhos. Em casos particularmente ruins, acordo depois e não tenho qualquer memória do que fiz — explico.

Sely me estuda por vários longos momentos. Então começa a rir e faz um gesto obsceno com suas mãos: — Você quer dizer como em nosso primeiro encontro quando você rasgou minhas roupas e me violou até minha mente apagar? Pode haver uma possibilidade de focar sua energia em algo além de matança e destruição.

Olho rapidamente para Cecília e então, para minha tia. Ambas me olham como se eu fosse culpado de algo: Acho que não devemos arriscar sua saúde por uma teoria sem provas. Além disso, nunca antes tentei ativar minha magia à força. Pode haver repercussões que não estamos cientes.

Sely franze seus lábios e esfrega seu cabelo que está correndo por seu ombro: — Então manterei sua performance maravilhosa daquela vez como uma boa memória.

Me leva um longo momento para pôr qualquer significado às suas palavras: — Você quer dizer que eu não consegui te satisfazer desde então!?

Ela dá de ombros.

Levanto um dedo, mas me impeço a tempo, de dizer algo estúpido: — Eu sei o que está tentando fazer, mas não vai funcionar. — Aponto para as outras duas. — Especialmente não com elas assistindo!

Cecília levanta ambas as sobrancelhas: — Mas eu teria que assistir para confirm…

— Não.

Ela tenta novamente: — Não é como se eu não fosse bem versada em vários tipos de técnicas…

— Não.

Fiacre limpa sua garganta. — Teoricamente, ela pode até se juntar. Ela não é…

— Não! — Sely berra em ultraje. — Eu posso observar a magia dele no ato.

— Finalmente estamos na mesma página. — Abraço a Sely. — Apenas para deixar claro! Isso nunca vai acontecer. — Se bem que, por que não? Não é como se a Cecília tivesse uma aparência ruim. Há muitos clãs que pensam em poligamia como normal. Só porque é uma tradição Bathomeus, não significa que tem que permanecer assim.

De repente, a porta se abre de rompante e Annia dispara para dentro, dando as mãos com a Kath. — Você viu as notícias?




Ei, se estiverem gostando do projeto e desejarem ajudar um pouco, vocês podem fazer isso acessando o link abaixo, solucionando o Captcha e aguardando dez segundos para ir à nossa página de agradecimentos.

Podem acessar por aqui.


Tradução: Batata Yacon   | Revisor: Delongas


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