LOS – Capítulo 34

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Capítulo 34:

~Relações Humanas~

 


 

“Eles envelhecem e morrem. Nós somos aqueles que seguem em frente.”

— Uma Memória dos Antigos

 


***Caríntia***

***Sely***

 

Samantha se reclina no sofá, visivelmente sem palavras.

Nós conversamos por pelo menos duas horas sobre as várias raças sobrenaturais dentro da cidade. Nós explicamos sobre os vampiros, trolls, Krampus, as pessoas do lago e muitos outros. A repórter pisca lentamente no final das minhas explicações, e então pergunta: 

— Então por que é que todos têm tanto medo dos Antigos? Vocês dois não me parecem dois seres excepcionalmente terríveis. Na verdade, são bastante amigáveis.

Eu giro uma mecha do meu cabelo entre meus dedos e sorrio: 

— Isso é porque você não nos enfureceu. Nós antigos somos os magos e deuses de seus mitos. Nós frequentemente perdemos nossa paciência e saímos em matanças por razões que não são justificáveis para os humanos. É por isso que preferimos viver fora da estrutura social humana. Mas não é disso que os outros sobrenaturais têm medo. Eles temem poder nos enfurecer o bastante para que trabalhemos juntos. Individualmente, já somos mais poderosos que a maioria dos outros sobrenaturais por conta de nossa magia, mas se trabalharmos juntos em um ritual, podemos gerar coisas realmente assustadoras.

Magnus assente e continua: — Durante a guerra com os fae, nossos líderes mais fortes uniram seus poderes em um, enorme, ritual. Os fae controlavam vastas áreas do norte europeu naquela época e a guerra não desenrolou como nossos ancestrais desejavam. Eles conceberam um plano, e causaram a última Era do Gelo, ou período glacial, que durou até doze mil anos atrás. A intenção foi destruir o assento de poder dos fae. As florestas deles congelaram e foram forçados a se retirar para Fada. E lá é onde eles têm estado desde então.

Samantha sacode sua cabeça.

 — Não me entenda errado, mas a última era do gelo? Isso não durou alguns milhares de anos? Não consigo imaginar um processo tão lento desses possa ter efeito em uma guerra.

— A guerra durou por milhares de anos e somos imortais. Se nossas vidas não forem terminadas à força, não há limite ao nosso tempo de vida. Nós temos a paciência de planejar alguns milhares de anos à frente se houver uma necessidade. Nosso único problema é que não somos muito bons em trabalhar juntos em largos grupos. Temos a tendência a lutar entre nós. Os outros sobrenaturais têm medo de nossa magia de larga escala. Eles não querem nos dar uma razão para usá-la — explica o Magnus.

A repórter assente: — Então, eu entendo que vocês não são muito amigáveis com os fae. Vocês têm algo a dizer para as pessoas que preferem acreditar na versão dos fatos dos fae?

Magnus sacode sua cabeça:

— Não.

— Não?

— Se eles acreditam em algo que escutaram em um canal de notícias, então é porque querem acreditar. Eu não posso ajudar tolos assim. Se eles pensassem por conta própria, então perceberiam que há algo suspeito sobre os fae. Tudo o que posso dizer é que os fae não são bem-vindos em nosso território. Há uma sentença de morte sobre a cabeça deles, como você certamente notou. Cada fae que se mostrou em público encontrou um fim rápido logo depois.

Samantha assente e pergunta:

— Então você admite que aqueles incidentes foram produzidos por Antigos?

Magnus dá de ombros: 

— Não faz sentido negar.

Eu assumo a conversa:

— Como explicamos, os fae devem ficar em Fada, onde eles pertencem. Nós já mostramos misericórdia o bastante para eles.

Eu levo a mão ao meu bolso e sorrio. Então coloco um chaveiro USB na mesinha em nossa frente.

— Caso sinta vontade, pode mostrar ao mundo o que realmente aconteceu naquela instalação. Essa é a versão sem censura do que estava acontecendo nos níveis inferiores, incluindo os diários de pesquisa. Eu manterei os dados de pesquisa em si para mim mesma.

Samantha arrebata o pen drive como a boa repórter que é, e o entrega para um cara de sua equipe.

— Nós teremos que analisar o material antes de podermos mostrar qualquer coisa disso.

Eu sorrio: 

— É claro.

Apenas espero que eles não comecem a fazer perguntas sobre a Kath. Mas não dei a eles nada que possa conectar a família dela à instalação. Os próprios pesquisadores não estavam particularmente interessados em documentar as identidades de suas vítimas.

Agora que paro para pensar, esqueci totalmente de conferir se ela tem mais algum outro parente. Isso é algo que tenho que remediar assim que possível.

Samantha bate suas palmas: 

— Temo que estejamos no fim de nosso tempo. Espero que estejam disponíveis para futuras entrevistas.

— Espero que não — responde o Magnus, sorrindo.

Eu o corto e me intrometo: 

— É claro que responderemos quaisquer perguntas, caso apareçam.

Samantha se vira para a câmera: 

— E é isso para a reportagem especial de hoje. Espero que muitas de suas perguntas estejam respondidas. Tenham uma boa noite. — Assim que a luz vermelha nas câmeras se apaga, a repórter murcha visivelmente.

Eva volta de seu esconderijo no canto da sala. Sua expressão mostra que ela tem sentimentos contraditórios sobre essa entrevista. 

— Isso foi melhor do que eu esperava e pior do que deveria. Você tinha que ser tão direto sobre tudo?

Magnus cruza seus braços em frente ao peito. 

— Desculpa. Mas é melhor se os humanos não tiverem nenhum mal-entendido sobre seu relacionamento com o mundo sobrenatural. Eu tive que ser direto. A última coisa que quero são fae em meu território. Agora ninguém ficará surpreso quando eu arrancar seus corações em câmera.

— Nota para mim, não convidar fae e Antigos na mesma entrevista — resmunga Samantha.

Magnus aponta um dedo para ela. 

— Você não convidará nenhum fae! Se o fizer, irei aplanar este edifício. Estamos claros?

Samantha assente:

Pego sua mão e cruzo braços com ele:

— Não acho que os humanos estejam acostumados a serem comandados deste modo, querido. Samantha, obrigada pela entrevista, mas realmente devemos ir para casa antes que quebremos algum costume humano. Foi um longo dia para nós.

Magnus resmunga suas despedidas e, juntos, nos levantamos.

 

***Caríntia***

***Kath***

 

Seguro a caneta com minha mente, ela está flutuando acima de minhas mãos no ar.

— Olha! Olha! Eu consigo controlar! Eu sou como o Harry Potter. Só não preciso de uma varinha estúpida pra fazer isso!

Isso é tão legal!

Fiacre levanta os olhos de seus documentos e sorri: 

— Isso é muito bom. Apenas continue se concentrando e certifique-se de não apontar para pessoas.

Eu concordo, todas as minhas preocupações sobre essa terra de fadas foram esquecidas. Eu posso usar magia. Se a mamãe e o papai pudessem me ver agora! O pensamento de meus pais imediatamente me deixa triste. Como eu posso brincar aqui quando eles não estão mais aqui?

De repente, a porta para a sala de estar se abre e eu me assusto. O homem mau entra na sala e perco minha concentração. Então a caneta dispara das minhas mãos como uma flecha e se afunda na coxa do homem.

Ofego.

Ele olha para a caneta que está presa em sua perna. Após alguns momentos percebo a mancha de sangue se espalhando. Eu fiz isso! O que ele vai fazer comigo? Eu vou ser chutada pra fora!? Mas não tenho para onde ir. Vou ter que ir para uma babá doida que nem nos filmes?

— Ai! — Ele manca até mim e agarra meu robe pelas costas do pescoço, me levantando como se eu não pesasse nada. Meu pai não podia fazer isso! Estou com medo de mais de fazer qualquer coisa, então simplesmente fico lá. Eles me deram vestes fortes. Do contrário acho que teriam rasgado.

— Detenção!

Fiacre vem em minha defesa: 

— Oh, vamos lá, Magnus. Foi só um pequeno acidente. Quem mandou você entrar na sala enquanto estávamos treinando? Ela não quebrou uma parede dessa vez.

Ele puxa a caneta de sua coxa como se não doesse nada.

— Ela atirou uma caneta dentro da minha perna! E isso significa que ela volta para a sala de treinamento!

— Mas eu acabei de receber permissão pra treinar do lado de fora hoje de manhã — choro.

— Cedo demais! — Ele me sacode.

Sely entra na sala e suspira ao nos ver.

— Kath, você não precisa ter medo de nós. Nós não iremos te machucar.

Eu olho para o homem. Ele sempre tem essa expressão sinistra. Como se estivesse prestes a bater em alguém. E nunca sorri pra mim.

Sely o força a me abaixar e me abraça. 

— O Magnus não vai te machucar. Você é uma de nós, Kath.

Fiacre suspira. 

— Se quiser culpar alguém, então me culpe. Eu deveria ter dito a ela para ficar de frente para a parede. Eu pareço ser uma má professora.

Eu olho para o chão. 

— Não tem uma escola para coisas como aprender magia?

Todos os três me olham com expressões em branco, então tento explicar: 

— Uma escola? Onde crianças podem brincar juntas? Sinto falta da minha escola e meus amigos.

Sely fecha seus olhos e esfrega a ponte de seu nariz: 

— Sinto muito Kath, mas você não pode voltar para a escola. Você pode machucar as outras crianças com a sua habilidade. E não há escola nenhuma para aprender magia. Mas prometo que faremos nosso melhor para te ajudar.

Eu suspiro. 

— Então não tem como escapar disso? E a tia Olívia? Posso ver ela?

— Nós podemos visitá-la agora, mas você não pode ficar com ela. Seria perigoso demais. E teremos que explicar exatamente o que aconteceu com você. — Sely pega minha mão e me guia para a porta. — Fiacre, que tal se juntar a nós?

Fiacre sacode sua cabeça: 

— Não sou muito bom com coisas sociais, você sabe disso.

Olho para ela, implorando com meus olhos. Finalmente, Fiacre suspira e se levanta: 

— Tá bom! Acho que gasto a maior parte do tempo com ela, então deveria estar presente nessa conversa.

Nós deixamos o homem mau para trás e vamos para a porta. Ele pareceu um pouco aturdido por ter sido completamente ignorado nisso. Mas eu não me importo. Eu vou ver a titia. Ela sempre foi boazinha comigo.

Nem mesmo meia hora depois, estamos na casa dela e aperto a campainha. Quando a porta se abre, é realmente ela.

— Titia! — Me jogo nela, abraçando sua cintura.

— Oh meu deus! Kath! Pensamos que você estava morta! Cadê seus pais?

Eu não olho pra cima. Não quero admitir que a mamãe e papai viraram monstros.

A voz da Sely é calma e cálida como sempre:

— Sra. Olívia? Há muita coisa sobre o que devemos conversar.

A titia me leva pra dentro e vou direto para a cesta onde o Felix, o gato da titia, sempre dorme. O velhinho realmente está na sua cesta e brinco por pelo menos dez minutos com ele. Quando retorno aos adultos com o Felix em meus braços, eles estão na cozinha. A expressão da titia é grave e determinada.

Sely fala silenciosamente, mas sua voz é insistente:

— Eu sinto muito, mas não sei o bastante para revertê-la ao normal. Após ver as coisas lá naquela instalação, eu nem mesmo quero tentar. Nós ensinaremos a Kath a controlar sua magia, mas isso não acontecerá da noite para o dia. Ela terá pelo menos quinze ou dezesseis anos antes de podermos sequer pensar em deixar ela sair sozinha. E se ela acabar sendo uma genuína Antiga, terá que lidar com outros problemas dali em diante.

Fiacre assente: 

— Mas você pode visitá-la a qualquer hora. Há sempre alguém pronto para atender a porta.

A titia vem até mim e me abraça, quase esmagando o Félix entre nós duas. 

— Eles explicaram tudo. Sinto muito, mas prometo que vou te visitar pelo menos duas vezes por semana.




 

Ei, se estiverem gostando do projeto e desejarem ajudar um pouco, vocês podem fazer isso acessando o link abaixo, solucionando o Captcha e aguardando dez segundos para ir à nossa página de agradecimentos.

Podem acessar por aqui.


Tradução: Batata Yacon   | Revisor: Delongas


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3 ideias sobre “LOS – Capítulo 34

  1. victornorte

    mencionar que os anciões deles tem poder para causar um desastre como a era do gelo não foi uma atitude sábia. vão temer o poder deles, se livrar dos mais fortes, manter eles separados, coisas básicas que o ser humano faz desde que existiu.

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