LOS – Capítulo 33

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Capítulo 33:

~Entrevista~

 


“Sempre escolha seu próprio destino. Do contrário, escolherei por você.”

— Uma Memória dos Antigos

 


***Caríntia***

***Magnus***

 

— Eu falei para se considerar uma viúva. — Me apoio na Sely enquanto atravessamos a soleira. No outro lado somos recebidos por Oilell e Eva, esta última esperando ansiosamente por nosso retorno.

Eva vacila ao me ver: — Pelo falso deus! O que aconteceu com você!?

— Eu só tive um pequeno confronto com outro Antigo. — Minha atenção vaga para o espelho perto da escadaria. — Eu não entendo vocês. O dano superficial já está curado… quase todo. Eu quase me pareço com um ser humano.

Eva guincha:

— Estava pior!? E quanto a entrevista? É nesta noite! Você vai ser capaz de participar? Como vocês decidiram as coisas?

Eu inspiro e solto um longo suspiro.

— Não se preocupe. Você terá sua entrevista. Infelizmente, não houve consenso quanto ao genocídio. Mas decidimos defender nossa reputação. Eu só tenho que me trocar para roupas inteiras.

Eva levanta uma sobrancelhas e resmunga:

— Que reputação?

Ignoro ela e permito que Sely me ajude a subir as escadas. É claro, eu poderia ter caminhado sozinho, mas é simplesmente maravilhoso ter uma bela mulher me mimando. Após o duelo, sinto como se um caminhão houvesse me atropelado…

Eu já tive a experiência, então sei do que estou falando.

Por sorte, não houve mais nenhum incidente e Tina nos acompanhou de volta à porta da minha família. Lá, ela ofereceu suas despedidas e prometeu que nos veríamos de novo em breve. Já que já estávamos em Atlantis, era mais rápido Tina ir para a passagem de seu próprio clã do que retornar conosco.

De volta em nossos aposentos, me limpo e me decido em um terno novo. Sely de algum modo consegue manter-se limpa mesmo estando me tocando. Quando retorno do banho, ela está em condição pristina.

— Mulheres conhecem algum feitiço secreto para se manterem limpas?

Ela inclina sua cabeça e sorri: — Se eu te dissesse, não seria mais segredo. Consegue caminhar sozinho?

Arrumo meu traje e me endireito: — Eu preciso. Não podemos mostrar nenhuma fraqueza nessa primeira entrevista.

— imagino que não — responde Sely e me segue porta afora. Quando me viro, toda sua expressão me avisa a não dizer uma única palavra sequer. Imagino que ela virá comigo, não importa o que eu diga.

Volto para a base da escadaria, onde Eva está esperando por nós. Oilell trouxe uma bandeja com chá para todos e está me oferecendo um pouco. — Experimente o copo amarelo, Mestre. É chá de cidra. Estou tentando novas receitas.

Estendo a mão para o copo indicado e dou um gole. É tão ruim que tenho que engolir de uma vez.

Azedo demais!

Oilell sorri: — Sério? Então terei que adicionar menos suco de cidra na próxima. Sinto muito, Mestre.

Pondero sobre essa declaração por um tempo. Oilell nunca comete erros, ou me usa para testar novas receitas. Sely parece estar bem com seu próprio copo. De algum modo ela percebe meu dilema e se curva, sussurrando: 

— Acho que você cometeu o erro de enfurecer a cozinheira. É vingança pelo Oink.

Suspiro e bebo todo o copo de uma vez só. Então sorrio para Oilell: 

— Não se preocupe. Todos cometem erros. Você ficará melhor com o tempo. — Brownies são fanáticas por perfeição. Tenho certeza que mais fere a Oilell entregar chá com gosto ruim do que qualquer coisa que eu possa fazer a ela. E além disso, duvido que eu conseguiria pegá-la.

Eva é a próxima na minha lista: — Então, pode explicar como pretende fazer isso?

Ela assente: — Não é nada complicado! Eu sei que você abomina negociações complicadas. Como início, nós simplesmente marcamos uma hora com o canal de notícias local. Vocês falaram sobre as várias comunidades sobrenaturais e como estamos ajudando a cidade. Por favor, não foda tudo!

A encaro fixamente, mas Sely intervém: — É por isso que irei com ele.

Eu tenho um repentino retrospecto dela quase assassinando a secretária naquela instalação. 

— Eu não estou bem certo s-

Sely cruza seus braços sob seu peito, levantando-o.

— Mas eu estou! Já tive o bastante de você se jogando no perigo. De agora em diante, não deixarei você fora da minha vista.

Isso soa cansativo. Gesticulo para Eva seguir em frente e ela conforma: — Há muita coisa ocorrendo no mundo no momento. Os vários governos estão sobrecarregados. Se pode dizer que essa é a nossa melhor chance de resolver as coisas em um nível local.

Rolo meus olhos e caminho para a porta. Lá, disco o código para o meu apartamento. Quando atravesso, encontro Annia, Kath e Cecília na frente do meu computador. Ou devo dizer computadores? Minha velha mesa de trabalho foi substituída com uma muito mais larga. Além disso, três máquinas novas em folha foram adicionadas ao meu conjunto.

Annia está em uma delas, digitando algum código. Kath está jogando slither.io em sua máquina e Cecília assumiu a maquinona com três telas lado-a-lado. Lá, ela está simultaneamente lendo Wikipedia, assistindo um documentário no Youtube, e digitando uma nova mensagem no Facebook.

— Suponho que vocês três estejam se divertindo? — pergunto.

— Sim, homem mau. Annia chama de festa de rede — responde a Kath sem desviar os olhos de seu jogo. Seus olhos estão grudados na tela onde sua minhoca está prestes a circular uma minhoca muito menor.

Annia nos acena uma despedida, mas não reage de outro modo.

Cecília nem mesmo reage. Suponho, que com seu largo headset sobre suas orelhas, ela não esteja nem mesmo ciente de mim.

Sely me segue através da porta e estuda a cena, claramente nutrindo dúvidas sobre tais atividades: — Você tem certeza que esse é o modo certo de introduzir a mãe ao mundo moderno?

Annia olha para nós com os cantos de sua boca puxados para baixo. — A Mãe tentou matar uma garçonete quando ela trouxe café ao invés de chá. É muito mais seguro apresentá-la aos costumes modernos desse jeito. Por sorte, ela está se adaptando muito bem aos computadores. Eu não esperava isso.

Sely sacode sua cabeça, falando:

 — Apenas certifique-se de que vocês três não virem nerds. Eu vi bastante documentários estranhos sobre humanos ficando viciados nessas máquinas.

Ela suspira: 

— Sim, mãe.

Sely grunhe: 

— Não me chame de Mãe.

— Sim, mãe.

Nós saímos do apartamento e Eva nos guia para uma limusine preta com janelas espelhadas. Eu mudo imediatamente meu curso e vou para o meu SLK. Eva se joga em mim, abraçando-me em torno da minha cintura. 

— Por favor, por favor, por favor! Essa limusine combina com sua imagem como governante deste território! Não use aquele SLK vermelho.

Eu a empurro para longe, o que é auxiliado por um baixo rosnado da Sely.

Minha namorada pode não gostar de outras mulheres me tocando, mas quanto a limusine, ela definitivamente está no lado da Sely. Dando braços comigo, ela me guia de volta para a abominação de carro. 

— É só essa única noite.

Eu sacudo minha cabeça em negação: 

— Não. Qualquer coisa menos isso! — Carros assim são dos anos oitenta! Gesticulo para a área de estacionamento em nossa volta. — Escolha qualquer um desses carros. Tem mais de cem deles e todos me pertencem.

No final tive que ir em um largo Audi preto. Não gosto da marca, mas as duas mulheres não me deixaram nenhuma outra escolha. Alguns anos atrás, Audi era uma das melhores fabricantes de carros. Atualmente caíram vítima ao mesmo processo de otimização que destruiu muitas outras companhias. Bem, não são mais manufaturados com qualidade em mente. Maximização de lucros é a regra do século.

Nós chegamos ao nosso destino sem incidentes. Saio do carro e ofereço uma mão para a Sely. Nos encontramos na frente de um largo edifício comercial que pertence ao grupo de mídia local. Eva já sabe o caminho e nos guia para dentro, onde anuncia nossa chegada para a secretária humana.

A secretária nos guia mais adentro no edifício, onde somos recebidos por uma mulher de meia-idade que tem um indício de cinza em seu cabelo. Ela parece ser um dos humanos que toma seu processo de envelhecimento com dignidade e não tenta esconder sua verdadeira idade com cosméticos. Eu gosto disso.

Apesar de sua idade, ela nos mostra um sorriso perfeito com deslumbrantes dentes brancos. 

— Oi, eu sou Samantha. Eva me contou que vocês serão os porta-vozes da comunidade sobrenatural?

Eu sorrio e respondo: 

— Somos. Meu nome é Magnus Bathomeus e esta é minha esposa, Sely.

Samantha olha interrogativamente para Eva, mas deixa pendente quaisquer perguntas que possa ter.

Por favor me siga ao estúdio. Normalmente eu teria uma longa discussão com todos envolvidos antes de realizar entrevistas ao vivo, mas vocês dois parecem ser pessoas ocupadas. Não tenho escolha além de fazer isso ser curto.

Sely assente e usa sua voz carrilhão para tranquilizar a mulher. 

— Nós tentaremos nosso melhor para reduzir os medos que a população humana possa ter.

Entramos em uma sala com um largo sofá que circula em torno de uma pequena mesa. Várias pessoas estão preparando equipamentos como câmeras e microfones. Eu tomo o assento indicado e Sely senta-se bem ao meu lado.

Samantha senta-se no assento oposto a nós.

— Perdoe-me, mas vocês parecem tremendamente jovens. São vampiros como a Eva?

Olho para um canto sombrio onde a Eva está tentando se esconder durante a entrevista.

— Não. Ela não te contou quem somos?

Samantha abre suas mãos: — Lamento. Não me foi dito quase nada e odeio isso. A comunidade sobrenatural falou ao governo local e tudo mais aconteceu em uma pressa. Eu praticamente recebi a ordem de entrevistá-los. Isso ou é o maior marco na minha carreira, ou o fim da estrada.

Ela inclina sua cabeça e cerra seus olhos para nós.

— Conheço vocês? Vocês parecem tão familiares.

Sely assente:

— Provavelmente. Nós estivemos em todos os noticiários quando os fae desacreditaram outros sobrenaturais. Você pode ter visto as nossas gravações na reportagem sobre Antigos.

O sorriso de Samantha desaparece.

 — Ótimo! Não é só o fim da estrada. É o último prego no meu caixão.

Eu limpo minha garganta: — É por isso que estamos aqui. Para resolver alguns mal-entendidos sobre o mundo em que vive.

Samantha toca sua testa. — Não é como se eu tivesse qualquer escolha. Então terei que improvisar até a polícia reconhecê-los e invadir esta sala.

— Eles não virão — anuncio, ainda sorrindo.

Samantha franze sua testa: — O exército?

Eu sacudo minha cabeça: — Pelo menos nenhum estacionado neste estado federal.

Samantha se força a sorrir e usa sua mão para abanar algum vento para sua face: — Temo que já estejamos alguns segundos atrasados. Então temos que começar a entrevista. — Ela olha para as pessoas cuidando dos equipamentos. — Prontos?

Um deles assente e nos dá uma contagem regressiva.

O repórter vira sua atenção de volta para nós e põe um sorriso deslumbrante: — Boa noite, senhoras e senhores. Hoje nós chegamos a vocês com uma entrevista especial. Temos dois representantes da comunidade sobrenatural local bem aqui em nosso estúdio! Esses são Magnus Bathomeus e sua bela esposa, Sely Bathomeus.

Ela aguarda por um longo momento antes de eu perceber que ela quer que eu diga algo. Tudo que consigo inventar é um patético “Boa noite”.

Samantha assente:

— Nós escutamos um monte de coisas ruins sobre sobrenaturais. Vocês têm algo a dizer disso?

Me sento mais ereto. — Eu vi muitas das reportagens. Tudo o que posso dizer, é que os fae estão tentando influenciar a humanidade a começar uma guerra contra os sobrenaturais. Eles estão tentando mudar o balanço em uma guerra fria que têm acontecido por milhares de anos.

Ela assente: — Pode explicar do que se trata essa guerra fria?

Sely se reclina em seu assento: — Os fae são a prole mutada entre Antigos e humanos. Nossos ancestrais tentaram se misturar com seus primos distantes, mas as crianças de tais casais foram, ou distorcidos, ou reduzidos… — Ela continua com a versão oficial e uma descrição detalhada dos hábitos de procriação dos fae. Então eu explico as razões por trás da inimizade entre fae e outros sobrenaturais.

Samantha para de sorrir durante essa última parte:

— Eles estão usando humanos para procriar?

Dou de ombros: — Na maior parte, mas eles preferem outros sobrenaturais acima de um humano. É por isso que eles estão esperando agitar uma guerra. O caos resultante seria a chance deles ganharem poder. Muitas pessoas sofreriam com o sucesso deles.

Me virando, dirijo-me diretamente à câmera: — A coisa mais esperta a se fazer, seria prosseguir com nossas vidas diárias. Nós, sobrenaturais, temos cuidado de nós mesmos desde o alvorecer dos tempos. Eu entendo que agora é impossível ignorar completamente nossa existência. Não obstante, é importante a humanidade não desequilibrar a balança. Os únicos que sofrerão seriam vocês.

Samantha limpa sua garganta: — Sim. Quanto a isso. Muita gente diz que a humanidade já está sofrendo por causa de sobrenaturais. Há um vídeo de você mesmo, matando pessoas inocentes em seus locais de trabalho.

Me viro de volta para Samantha: — Sim, aquele vídeo foi feito quando impedi pesquisa ilegal em sobrenaturais. Eu matei oitenta e sete pessoas naquele dia.

O olho esquerdo de Samantha contrai-se. — Por quê?

— Por que eles tentaram cruzar humanos com Antigos. Acho altamente provável que a instalação tenha sido patrocinada pelos fae. Tais experimentos já foram o que nos trouxe a atual situação. Nós antigos temos uma lei severa contra tal pesquisa. Nós permitimos que todos sem envolvimento escapassem, mas todos os outros foram mortos na hora. Eu não permito tais práticas em meu território.

A repórter levanta sua sobrancelha. — Seu território?

Eu suspiro. Por que a Eva me enviou pra isso sem explicar nada para esses imbecis? — Sim. Minha família tem governado nesta região por vários milhares de anos. Você pode me chamar de governante dos sobrenaturais nesta região. Quando têm um problema, eles vêm a mim. Adicionalmente, eu possuo a maior parte das grandes companhias sob várias identidades diferentes, e uma vasta porção da terra é legalmente minha. Três quartos do dinheiro privado deste estado pertence a mim.

— Hahaha… é difícil acreditar que uma única pessoa tem tanto assim. E vários milhares de anos?

Dou de ombros: — Você ainda está cometendo o erro de pensar em mim como humano. Mas agora que não tenho que me esconder, contratarei um exército de advogados para corrigir todas as minhas identidades errôneas. Eles organizarão todos os meus pertences. Manter tantas identidades falsas vivas é um verdadeiro incômodo. De certo modo, estou feliz pelos fae terem quebrado o status quo.

A expressão de Samantha fica perturbada. — Mas se isso é verdade, então e quanto aos humanos?

Sely faz um gesto de indiferença: — Não se preocupe. Nada mudará para vocês. Não é como se nós de repente fôssemos tratar vocês como se fossem gado. Esse é um destino que os fae têm reservado para vocês.

Eu assinto: — Sim. Não mentirei para você. Para nós, vocês são mais como abelhas. Nós Antigos lucramos mantendo sua cultura viva. Nós somos similares o bastante para encontrar entretenimento nos seus brinquedos. Se nós não os protegêssemos, não teríamos todos os confortos da sociedade moderna. Nós somos individualistas demais para produzir algo tão chique quanto um carro ou um computador.

A voz de Samantha fica um pouco trêmula: — Então para os fae nós somos máquinas de procriação inúteis, e vocês Antigos nos mantém vivos porque produzimos todas as engenhocas confortáveis que vocês gostam?

Assinto de novo: — Sim. E nós até protegemos vocês dos sobrenats mais desordeiros. Eu mesmo, até realoquei os Krampus como a força policial local. Atualmente, eles não roubam nenhuma criança. Eu tenho alguns conhecidos humanos e todos eles expressaram seu desconforto com o pensamento, então aboli a tradição.

— Os Krampus são reais!? E eles assumiram a força policial?

— Acho que ela não precisava saber disso — murmura Sely.

Eu suspiro:

 — Eu tenho a sensação de que esta será uma entrevista realmente longa. Eu quero ir pra casa.


 

Ei, se estiverem gostando do projeto e desejarem ajudar um pouco, vocês podem fazer isso acessando o link abaixo, solucionando o Captcha e aguardando dez segundos para ir à nossa página de agradecimentos.

Podem acessar por aqui.


Tradução: Batata Yacon   | Revisor: Delongas


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4 ideias sobre “LOS – Capítulo 33

  1. Alex

    Aaaaaaaaah acabou kkkkk ty pelo capítulo ancioso pro desenrolar desse massacre de carreira desse mulher KKK mais e óbvio que vão adorar saber sobre os sobrents e a carreira dela vai alavancar mt

    Curtido por 1 pessoa

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  2. victornorte

    ele poderia ter dito que mantém os humanos vivos pelo conforto e pq não são monstros que não conseguem ver humanos vivos.

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