LOS – Capítulo 31

Anterior | Próximo


Capítulo 31:

~Argumentação~


 

“Nós nunca dissemos que a discussão terminaria pacificamente.”

— Uma Memória dos Antigos

 


 

***Atlantis***

***Magnus***

 

— Agora que eu paro para pensar… por que você não está usando o púlpito do seu próprio clã, Tina? Você não tem um? — pergunta Sely. Após escutar por cinco longos minutos o discurso do ancião, ela não quis continuar prestando atenção. Até agora, ele não disse nada de interesse. Ao invés disso, usou o tempo para nos entediar com o discurso mais florido que já escutei.

Tina inclina sua cabeça e sorri. — Tolinha, é claro que os Rhondu têm seu próprio púlpito. Mas decidi ser generosa e honrar minha sobrinha com minha presença.

Eu suspiro: — Ela quer dizer que ao se sentar conosco, mostra que temos seu suporte. E o fato de eu tolerar os guardas dela significa que nossos dois clãs estão em um relacionamento muito próximo. — Eu me viro para encarar os dois homens e duas mulheres que se juntaram a nós no caminho para o coliseu. Até agora, eles bancaram o papel de ouvintes silenciosos perfeitamente. — Ainda se falta ver se isso é para a vantagem dela, ou para a nossa.

Tina ri: — Quem quer que acabe vencendo neste relacionamento é irrelevante. Minha irmã deixou bem claro que não tolerará nada que fira seu relacionamento com suas filhas. E antes que pergunte, eu sou bem próxima a minha irmã. Ela passou por muita coisa e a encontrei bastante mudada após resgatá-la do Gavin. Não quero destruir o frágil balanço da mente dela.

Sely cerra seus olhos e se vira para Tina: — O que você quer dizer com “mudada”?

Sua tia dá de ombros e vira sua atenção de volta ao ancião. — A mana tinha uma personalidade muito teimosa. Ainda mais do que agora. Ela era a líder do nosso clã antes de desaparecer. Não era alguém que permitiria que qualquer um a tratasse mal. Isso sempre terminaria em sangue. Desde que a recuperei, testemunhei muitos encontros em que ela foi tratada com desrespeito e simplesmente aceitou.

— Ela não teria permitido isso antes? — pergunto.

Tina bufa: — Quase certamente que não.

Ela não elabora mais, então viro minha atenção total ao discurso do ancião.

— .. e assim nos encontramos aqui. Temos que decidir se toleraremos o insulto que os fae jogaram em nossas faces, ou agir. Eu sou da opinião que deixar aqueles meliantes vivos foi um enorme erro. Nós deveríamos tê-los eliminado na época. Mas devido às nossas próprias perdas e à nossa preguiça, nos contentamos com um empate.

Ele limpa sua garganta e desce do pódio, apenas para ser substituído por outro ancião.

— Acredito que não devemos nos importar com os fae. Quem se importa se eles agitarem alguns humanos? Quem quer que acabe pego por eles merece ser removido do fundo genético. É um processo de seleção natural…

Fecho meus olhos e sussurro com um gemido: — Isso vai continuar e continuar. Fazem mais de cem anos desde a última vez que escutei esses velhotes. Eles nunca se cansam? Ou eles simplesmente gostam de escutar as próprias falas?

Tina bufa: — Eles são velhos. E prova viva de que nossa raça pode ficar senil. Nós apenas mostramos sintomas diferentes dos humanos. Quanto mais velhos ficamos, mais interessados ficamos em longos discursos.

Coloco ambas as pernas na balaustrada e fecho meus olhos.

— Me acorde quando eles entrarem no assunto. — Então tento me desligar das vozes e lentamente vagar.

Devo realmente ter conseguido dormir, porque me senti um pouco sonolento quando a Sely me sacode e acorda.

— Eles estão votando! — explica ela.

— Votando? — pergunto.

— Se precisamos fazer algo sobre os fae ou não! — explica Tina e levanta sua mão, invocando um globo de luz.

Levanto minha mão e faço o mesmo.

— Suponho que verde seja genocídio?

— Verde é nos revelarmos aos humanos a fim de opor os fae. A solução do genocídio foi derrubada pela maioria dos anciões antes mesmo de chegar aos votos — explica a Sely.

Franzo minhas sobrancelhas: — Desde quando eles podem fazer isso?

— Eles têm muita influência, e muitos clãs estão apenas seguindo a opinião de seus respectivos anciões. Se a vasta maioria dos anciões decidir algo, então uma votação é apenas um desperdício de tempo — resmunga Tina.

Oh, vejo a lógica disso.

O ancião no meio do coliseu lentamente vira sua cabeça, contando os globos: — Duzentos e sessenta e quatro a favor de opor os fae. Cento e nove contra opor os fae. Nós nos revelaremos e continuaremos a eliminar os fae sempre que pudermos capturá-los. Mas não atacaremos Fada.

O coliseu anteriormente silencioso é imediatamente preenchido com os gritos da minoria. O ancião permite que o protesto prossiga por vários e longos momentos, então levanta seu cajado e o bate no chão, criando uma enorme onda de choque. Todos se calam em um instante. Não por estarem com medo dele. É mais uma questão de comportamento adequado à alguém mais velho.

Meu avô poderia ter sido um ancião se não tivesse sido tão resistente a se manter atualizado com os tempos.

O ancião olha em volta como se houvesse acabado de silenciar uma sala de aula cheia de crianças levadas: — Já que a questão foi colocada a voto, acataremos a decisão da maioria. Prosseguiremos com os problemas relacionados aos clãs. Alguém que deseje começar?

O coliseu é imediatamente preenchido com globos de luz. O ancião suspira e aponta seu dedo para a multidão. A projeção de um homem aparece sobre o ancião. Quando o homem percebe que foi escolhido, começa a falar: — Nós temos uma disputa de divisas em prosseguimento com…

Eu o desligo de minha mente e esfrego minha têmpora. — Que pena que não votamos por invadir Fada. Eu não esperava isso.

Tina corre sua mão pelo cabelo e fala: — A maior parte dos anciões está relutante em mudar algo que tem funcionado por um longo tempo. Basicamente ignorar os fae tem funcionado por milhares de anos. Suponho que eles ainda estejam esperando resolver a situação com meios menos drásticos.

Sely sacode sua cabeça: — O que mais os fae têm que fazer? É estranho um Antigo se segurar tanto.

Ponho um braço em volta de seu ombro: — Eles estão tentando proteger humanos e outros sobrenaturais. São eles que acabam pegos entre as duas linhas de frente. Os anciões são aqueles velhos o bastante para terem visto a guerra.

Tina resmunga: — Eles estão apenas dependendo do mito que criaram em torno de si. Tecnicamente eu também poderia me chamar de anciã, mas nunca me rebaixaria a bancar tal papel.

Eu levanto uma sobrancelha: — Quão velha exatamente é você?

Ela dá de ombros: — Não tenho ideia. Antigamente nós não contávamos tempo e as memórias começam a embaçar depois de um tempo. Todo o conceito de tempo só apareceu depois que o primeiro idiota começou a brincar com fogo. Mais velha que doze mil? Mas há antigos mais velhos. Alguns clamam que não havia linguagem falada quando nasceram. Eu na verdade tenho um pente antigo em casa. Minha irmã me deu como presente e sempre o mantive em segurança. Os métodos de datação de carbono o coloca por volta de oito mil A.C.

A expressão de Sely fica mistificada. — Por que você datou seu pente?

Tina sorri: — Estava curiosa. Como eu disse. Cada memória importante começa a se embaçar após algumas centenas de anos.

Só espero nunca ficar velho assim. Sem nada melhor para fazer, viro minha atenção de volta aos procedimentos em andamento. Clã atrás de clã busca uma solução pública para suas disputas. Nós podemos não ter um governo no sentido tradicional, mas há um conjunto estrito de regras para resolver certas questões em público. Essa reunião em solo neutro é a oportunidade perfeita para buscar soluções, enquanto se tem tantas testemunhas quanto possível.

Se um clã não se ater a uma decisão feita aqui, ninguém nunca mais se incomodará em escutá-los.

Aguardo silenciosamente a chance de anunciar minhas próprias questões até que um ancião escolhe um certo púlpito do outro lado do coliseu. Um homem de aparência severa com cabelos grisalhos em suas têmporas aparece na projeção. — Meu nome é Brennan, chefe de clã dos Baucheaux. Eu peço que a esposa legal de meu filho seja resgatada do território Bathomeus. Por anos pensamos que ela estava morta, apenas para descobrir que ela foi mantida em custódia pelos Hammons.

Aturdido, franzo meus lábios para pensar sobre suas palavras e suas implicações. Ou Brennan tá cheio de merda, ou Emil nunca se incomodou em contar ao seu clã as verdadeiras razões por trás de seu casamento. — Isso explicaria porque ele não levou a Sely junto. Estando em controle de si própria, ela poderia ter contado ao seu clã sobre as maquinações dele.

Começo a rir áspera e altamente. O som é carregado longe dentro do silencioso coliseu. Emil deve ter esperado que ninguém revelaria sua teia de mentiras. Como poderia? Os Bathomeus não têm aparecido nas reuniões em décadas. Então não haveria voz nenhuma para dizer o contrário. Que pena que a questão com os fae me fizeram mudar meu comportamento normal.

O ancião se vira para nos encarar. — Por que está interrompendo os procedimentos? — Ele gesticula e minha projeção aparece ao lado da de Brennan.

Custa muito esforço para recuperar meu controle rapidamente. — Meu nome é Magnus Bathomeus! Sou o atual líder de clã dos Bathomeus. E eu clamo Sely e Annia como minhas. Elas buscaram abrigo em meu território e garanti isso a elas. Estou certo que vocês escutaram toda a questão com os Hammons. Sely me informou que Emil e Gavin tentaram controlar sua mente quando ela foi forçada a se casar com ele.

O ancião se vira de volta para os Baucheaux e suas projeções se expandem, incluindo outro homem. Ele é grande, com ombros largos, e um cabelo castanho avermelhado. — Isso é uma mentira! Após a cerimônia de casamento, me foi dito que Sely morreu em um desmoronamento acidental. Eu vi o cadáver dela e voltei para casa. Agora que descobri a verdade, quero minha esposa legal de volta. Ela é minha responsabilidade.

Sely me empurra para o lado, silvando: — Mentiroso! Você e Gavin estavam envolvidos. Eu supostamente seria a “recompensa” por algo que você fez por ele. Vocês dois tentaram escravizar minha mente!

A testa de Brennan franze em linhas profundas. Isso claramente está indo muito diferente de como ele havia imaginado. Emil sacode sua cabeça: — Eles estão tentando destruir nossa reputação!

Empurro a Sely de volta para seu assento alcanço meu bolso. — Se você não sabe sobre a manipulação mental, então por que mandou seus capangas pra dentro do meu território? Pareceu muito como se você estivesse tentando nos silenciar antes de tudo isso se tornar público!

Rapidamente, jogo o dado no coliseu e o ancião o pega com facilidade. Ele estuda o encantamento nele, então quebra o pequeno cubo entre seu polegar e indicador. Uma matriz de feitiço espacial solta seu conteúdo e uma caixa pesada aterrissa no chão na frente do ancião. Ele se curva e a abre. Sua expressão não mostra um indício sequer de inquietude quando inclina a caixa e despeja o conteúdo no chão.

Cinco cabeças rolam na frente de seus pés. Ele aponta para uma delas: — Essa definitivamente é Marlene Baucheaux. Por que os Bathomeus têm as cabeças de seus subordinados, Brennan Baucheaux? Especialmente a cabeça da assassina mais renomada de seu clã?

Os olhos de Brennan piscam em vermelho e ele se vira para seu filho: — Você disse que eles abandonaram o clã!

Emil sacode sua cabeça: — Eles abandonaram! Os Bathomeus estão tentando nos enganar! E isso não importa! Ela ainda é minha esposa legal! Há testemunhas para a cerimônia.

Me ponho de pé e arrumo meu terno. — Sim, quanto a isso. Sely pertence a mim, já que ela carrega meu filho. Você pode ser o marido legal, mas o meio como a forçou na cerimônia não foi, de jeito nenhum, honrado. Há um jeito fácil de mudar isso. Eu o desafio, Emil Baucheaux. Dê-me sua esposa e se desculpe por invadir meu território. Se não o fizer, eu o matarei em um duelo por todas as suas posses.


 

Ei, se estão gostando do projeto e desejarem ajudar um pouco, vocês podem fazer isso acessando o link abaixo, solucionando o Captcha e aguardando dez segundos para ir à nossa página de agradecimentos.

Podem acessar por aqui.


Tradução: Batata Yacon   | Revisor: Delongas


Anterior | Próximo

4 ideias sobre “LOS – Capítulo 31

  1. victornorte

    no fim, parece que o plano do jardineiro não deu certo. a intenção dele parecia ser o extermínio dos fae, mas votaram contra isso. mas bem, deve rolar uma guerra total de qualquer maneira.

    Curtido por 1 pessoa

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s