LOS – Capítulo 28

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Capítulo 28:

~Lições~

 


 

“Medo é uma coisa boa. Ele ensina os outros a ficarem longe de nós.”

— Uma Memória dos Antigos

 


 

***Caríntia***

***Magnus***

 

— … e os vampiros são apenas parasitas que predam sangue humano. Eles… 

A Fae fêmea e os repórteres próximos desintegram em uma grande explosão. Pedaços de carne e partes de corpos são jogados alto no céu. A multidão reunida entra em pânico e pessoas pisoteiam umas às outras enquanto tentam escapar da carnificina. A entrevista pública é encurtada de maneira razoavelmente dramática.

Bato minhas mãos e pego o controle remoto para instruir a TV de tela plana a dar um replay na cena toda. — Eu amo esses caras na Rússia! Qual o nome do clã deles? Orvatschovs? Eles fazem o trabalho direito! Cada fae que mostra sua face em público é abatido logo em seguida. E sempre parece que são os humanos por trás disso.

Tina sacode sua cabeça com as mãos cruzadas na frente do peito. Ela também viu o ataque, mas não está feliz com isso. — Não acho que isso — aponta para a tv — nos compra quaisquer amigos entre os humanos. Tenho certeza que os fae estão tentando provocar uma guerra entre humanos e sobrenaturais. Assim que o mundo for uma bagunça caótica só, eles podem fazer a varredura e assumir. Os Orvatschovs só estão brincando na palma das mãos deles com esses assassinatos impiedosos. Os métodos deles causam danos colaterais demais.

Ela pode estar certa nesse ponto. Os discursos que ouvi até agora podem ser desconstruídos em duas declarações. Fae são bons e todo o resto é mau. Dou de ombros: — E quanto ao seu território?

A expressão dela se torna pensativa. — Mesma coisa que o seu. Nada. Os fae concentram a maioria dos seus esforços nas grandes cidades. Eles estão tentando colocar os governos do lado deles. Em horas assim fico feliz pelo meu povo ter escolhido uma área razoavelmente rural para se assentar. Isso nos faz menos importantes nos olhos dos outros clãs, mas isso às vezes é uma grande vantagem.

Minha atenção se volta à Sely, que está deitada no sofá da sala de estar. Seu olhar fixo no teto. Ela está em pensamento profundo. Me aproximo e pego sua mão, sorrindo. 

— Não faça uma cara dessas, Amor! Estamos virando pais!

Sua expressão fica confusa:

 — Eu não entendo. Por que você de repente está tão animado com isso? Não foi você quem perguntou se eu tinha me certificado de que nosso primeiro encontro não teve consequências? E deve ter sido a primeira vez. Do contrário eu já não estaria mostrando sintomas de gravidez.

O enorme riso permanece chapado no meu rosto:

 — Mas isso foi antes de nós sermos um casal. — Na verdade eu tinha pensamentos secretos sobre ter uma família com a Sely. O fato de sermos compatíveis é um presente dos deuses. O que quer que o destino jogue sobre nós, podemos dar um jeito.

— Sim, mas há muitas coisas para pensar. Quem vai cuidar do bebê com uma guerra acontecendo? Você ao menos sabe quanto trabalho uma criança dá? Eu já tive uma experiência próxima com a Annia. Deixa eu te dizer, cuidar de uma criança com magia é um trabalho de vinte e quatro horas! Nós já temos a Kath e somos só três pessoas. Quatro se a Cecília realmente decidir ficar conosco.

Eu devo admitir que minha expressão caiu durante sua tirada. Eu comecei a imaginar diferentes cenários de eu tendo que cuidar de uma criança. Nenhum deles acabou bem. Como trocar fraldas, ou impedir a criança de usar magia quando passa a usar seus poderes.

Como se o mero pensamento houvesse invocado a catástrofe, ouvi um alto “Boom!” do saguão de entrada.

Salto de pé e corro para investigar a causa, apenas para encontrar a Kath inquieta na frente de um enorme buraco na parede. Fiacre não está em nenhum lugar à vista, então vou para trás da criança para investigar o dano. Ela socou uma nova entrada para a sala de jantar. Muito provavelmente um caso de uso acidental de magia de força. Ela tem bastante poder para a idade. Se a garota começar a invocar magia selvagem e der azar, pode acabar nivelando a mansão.

Quando percebe que não está sozinha, ela se vira e ofega ao me ver. Está claro que ela não espera nada de bom de mim. Sorrio para ela, viciosamente:

 — Tenho certeza que lhe disseram para não usar magia a menos que alguém lhe instrua.

Ela assente, seu queixo estremecendo: 

— Eu caí e ela simplesmente… simplesmente saiu, e woosh, e bam! — Ela aponta para a parede.

— E cadê a Fiacre? — pergunto.

Kath desvia o olhar, e responde:

. — No jardim. Procurando.

Sely caminha até o meu lado:

 — Procurando pelo quê?

— Por mim? Ela tentou me ensinar mais controle, mas não conseguia acertar. Então escapei — confessa Kath.

Pondero quanto ao problema. Kath já tem oito anos de idade. Controle não lhe deveria ser um problema, já que sua magia deveria ter começado a se desenvolver aos cinco anos. Mas ela não é uma criança normal da nossa raça. Ela era apenas uma humana até manipularem seu código genético. Agora ela tem todo esse poder e nunca aprendeu a controlá-lo.

É como se alguém houvesse lhe dado um membro adicional e novos sentidos. Some-se a isso o déficit de atenção de uma criança e temos em mãos uma potencial bomba relógio. Agarro suas roupas pelas costas e a levanto como um saco de arroz. Ela congela e se permite ser carregada enquanto caminho mais profundamente na mansão.

— Ei! Isso não é jeito de se tratar uma criança — protesta Sely.

— Ela deveria ficar feliz que não a esfolei por danificar a casa da minha família. Essa casa tem muitas memórias ruins, mas ainda me é preciosa. — Viro em um canto e abro a porta para um grande salão de treinamento. Sely e Tina me seguem, se certificando que eu não ferirei a criança.

Largo Kath no macio chão forrado e piso na runa que ativa o manequim de treinamento. A sala inteira se acende com círculos mágicos. Partículas de energia azuis começam a se reunir para formar um par de pés, tronco e então, o resto do corpo. Um homem com roupas negras aparece na nossa frente. Ele não tem face e apenas fica lá de pé, braços do lado do corpo.

— Modo de treinamento: Saco de pancadas — instruo o manequim. Então viro minha atenção para Kath: — Esse é um boneco de treinamento e essa sala é protegida. Você não pode causar destruição nenhuma com sua magia enquanto está nessa sala. A boneca é similar aos espíritos guardiões que estão te seguindo. Já se encontrou com eles?

Ela assente:

— Bom. A diferença é que o boneco não tem consciência e é muito mais fraco. Boneca: Simular humano. — Aponto para o manequim e ordeno a Kath: — Bata nele.

Ela franze a testa, mas faz como ordenada, acertando o manequim em seu ventre. Esse é o ponto mais fácil de se alcançar para ela. É claro que ela não consegue nada. O Manequim nem mesmo se mexe.

— Dessa vez foque no poder dentro de você. Imagine uma corrente de água quente do seu peito até seu punho. Então deixe isso explodir para fora e longe do seu punho.

Ela faz de novo sem resultados. Não digo nada enquanto observo a terceira e quarta tentativa. Quando ela tenta pela quinta vez, agarro seu ombro e forço meu próprio poder dentro dela. Eu circulo a magia através do seu corpo, permitindo que ela se concentre na sensação. — Você sentiu o poder se movendo dentro do seu corpo?

Ela assente:

— Se concentre nessa sensação e faça como lhe disse. 

Eu a solto.

Kath forma um pequeno punho com sua mão e acerta o manequim de novo. Dessa vez seus movimentos são rápidos e o golpe acerta de forma pesada. O Manequim é explodido em pedaços, atirando as pernas para os lados e o tronco para longe de nós, espirrando a sala com sangue e entranhas.

Sely está imediatamente ao lado da Kath, cobrindo seus olhos. — Você não pode mostrar essas coisas pra ela!

Eu franzo:

— Por que não? Ela tem que ver o que vai acontecer se não conseguir controlar suas habilidades. Kath tem que aprender que ela pode ferir alguém. Ter poderes assim não deve ser tratado levianamente. Então deixe ela ver o que fez e não interfira.

Kath puxa a as mãos da Sely, e fala:

— É só uma boneca? Não é? Não é real. O homem malvado só quer que eu não me machuque. Ou machuque os outros.

— Não desconstrua minha orientação dessa forma. — Você vai machucar muita gente quando encontrar uma boa razão para tal.

Kath observa os restos se dissolverem e um novo manequim aparece. Eu grunho: 

— De novo. E então de novo. A sala não vai deixar você sair até ter esgotado seus poderes. Você vai entrar nessa sala toda manhã e não sair para brincar até ter gastado toda sua magia, ou puder provar que pode controlá-la. Está claro?

A criança me olha com uma expressão amarga:

— Claro. Mas eu se eu precisar fazer xixi?

— Oilell vai garantir que você tenha um penico ou um balde aqui. — Aceno com a cabeça e ignoro a expressão horrorizada da criança. Então me viro para partir, mas Tina e Sely barram meu caminho.

— Não acha que deixar ela de castigo dessa maneira é um pouco severa? — pergunta Tina. Parece que ela se apegou a pequenina.

Mantenho minha posição: 

— E na próxima vez que ela perder o controle, vai acidentalmente ativar magia selvagem e acabar com toda a mansão. Ela inclusa. Não preciso disso. Os poderes da Kath foram dados a ela do nada e ela já mostrou que não consegue controlá-los. Ela tem que aprender da mesma forma que todo mundo. Através de treinamento e experiência. Essa sala é a maneira mais fácil de ensiná-la. Parem de tratá-la como uma criança normal dos Antigos que gradualmente se acostumou com as habilidades. Como está agora, ela representa perigo até aprender a não estourar sua magia por aí só porque tropeçou.

Sely suspira e fala: 

— Acho que ele está certo nesse caso. Mas isso não significa que a Kath tem que mijar em um balde!

Puxa vida. Cadê a diversão na coisa toda do castigo se ela puder ir no banheiro? 

— Tá bom. Sugiro que encontremos a Fiacre pra dizer a ela que a Kath está na sala de treinamento. Onde ela vai ficar até conseguir controlar um pouco seu poder. — Viro minha atenção para a criança.

A raquiticazinha olha pro chão, evitando meus olhos. Bufo e saio da sala, deixando a criança para o manequim. Uma vez do lado de fora, estalo minhas juntas. — Então… cadê aqueles dois?

— Quem? — pergunta Sely atrás de mim. Ela me seguiu enquanto Tina ficou com a criança.

— Aquele pássaro estúpido e o urso. Pra que me incomodo em prender dois espíritos guardiões na criança se eles não fazem seu trabalho direito? Eles deveriam ter pego a Kath no momento que ela fugiu da tutela da Fiacre. Vou ensinar uma lição a eles. Os tempos de ficar de moleza acabaram.

 

***Caríntia***

***Sely***

 

Nos custou uma hora para colocar a casa de volta ao normal. Tão normal quanto possível. Magnus ameaçou dar os dois espíritos guardiões de comer a Lindwurm, o que gerou um monte de ajoelhamento e apelos por misericórdia do lado deles. Aparentemente wyrms não descartam uma boa porção de magia se lhes for oferecida.

O que nos traz de volta a todos estarem reunidos na sala de estar, exceto pelas crianças. Continuamos a assistir os noticiários. A mídia está se banqueteando com as revelações recentes. Também há um grupo de sereias na Islândia que veio a público para impedir os fae de contar mais mentiras sobre elas comerem pescadores.

Isso é quando Tina solta outra bomba sobre nós. 

— Os fae, Hammons, Baucheaux, vocês têm um monte de ameaças iminentes e potenciais para lidar. Tem certeza que não querem voltar para o nosso território?

Após alguns momentos percebo que Tina está se dirigindo a mim. 

— Definitivamente não! Estarei ficando bem aqui. Este é o meu novo lar.

Ela suspira e levanta seu telefone: 

— Então o que você vai fazer a respeito do grande congresso em Atlantis? Muitos chefes de clã estão clamando por uma grande assembleia na primeira cidade. Especialmente os antigos que estavam presentes e se lembram da primeira guerra com os fae. Eles querem nos unir contra um inimigo em comum. Todos com nome e ranque estarão lá. Como um clã, vocês terão que mostrar suas faces, ou eles podem varrer seu território se acontecer dele virar um ponto de interesse estratégico.

Magnus cantarola, ponderando algo:

 — Os Baucheaux não estarão lá? Eu posso ser capaz de devolver seus caídos para eles pessoalmente.

Estremeço. Por que ele está tão focado em devolver aquelas cabeças? 

— Isso não vai enfurecer os Baucheaux ainda mais?

Ele sorri: 

— Esse é o ponto. Quero forçar o Emil a cuidar dos seus próprios assuntos. Ele já perdeu um capanga que tinha uma reputação e tanto. Seus seguidores vão perder a confiança nele caso continue a cometer erros assim.

 

 


 

Tradução: Batata Yacon   | Revisor: Delongas

 


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