LOS – Capítulo 27

Anterior | Próximo


Capítulo 27:

~Muitas Coisas~

 


 

“ E quando viram que os outros criaram riqueza e luxo em uma escala previamente desconhecida, eles passaram uma única lei que todos devem obedecer. Deixo-os em paz, vivam nas sombras e não os perturbem em sua abençoada ignorância.”

— Uma Memória dos Antigos

 


 

***Caríntia***

***Sely***

 

Não me sinto bem. Ele saiu e eu não me sinto nada bem. Maldito! Caminho de um lado para o outro no saguão de entrada, não me importando com o fato de deixar os outros nervosos. Todos estão reunidos aqui para discutir nossos próximos passos. E mais importante, o que fazer quanto ao desaparecimento do Magnus.

— Pare de caminhar em círculos, Sely. É como se você fosse algum tipo de cachorro sem seu mestre. — Annia me repreende de modo levemente incomodado. Devido à ordem do Magnus, ela não foi capaz de explorar a cidade com nossa mãe. Isso a deixou levemente com raiva.

Não paro de caminhar. — Não posso! Ele me deixou pra trás! Eu disse pra ele que fazer algo assim teria consequências. Tem certeza que os outros sobrenaturais não sabem onde está, Fiacre? E quanto a Eva? Ela já foi contra as ordens dele antes — pergunto.

Fiacre sacode sua cabeça, seu celular em mãos. — Ou não sabem, ou não querem dizer.

Me aproximo da Kath, que está segurando o vestido azul da Fiacre. — Você tem certeza absoluta que ele disse apenas para aguardar? Ele não mencionou onde ia?

A pequenina sacode sua cabeça: — Não. O homem malvado só pulou, berrou comigo pra dizer pra todo mundo pra ficar na berlinde de realidade, e saiu.

Eu realmente espero que ela não faça de hábito chamar o Magnus de homem malvado. Bem, ele é… de certa forma. Mas ele também é um cara bem legal… com algumas pessoas seletas. Parece que ele pode ser chamado de bom ou mau.

Tina brinca com seu cabelo: — Ele desaparece com frequência? Não é bom um líder de clã sair correndo sem dizer a ninguém para onde está indo.

Fiacre dá de ombros: — Como vou saber? Não é como se fôssemos tão próximos durante os anos recentes. Isso só mudou porque a Sely apareceu, algo pelo qual sou grata.

Oilell assente: — O Mestre frequentemente desaparece por dias sem me dizer nada. Na maior parte para caçar aqueles que violam seu território. Ele é como um gato grande nesse aspecto. É realmente difícil planejar para qualquer coisa sem saber quando ele vai voltar.

Annia rola seus olhos e retorna sua atenção ao seu tablet. Um da Sams*ng. Versão mais recente, extralargo. Aponto para o dispositivo e pergunto: — Onde você conseguiu isso?

Uma expressão de culpa aparece em seu rosto. — Peguei emprestado do Magnus?

Oilell bufa: — Apenas diga a verdade. Você pegou um dos cartões de crédito do Mestre e comprou isso. Mas não se preocupe. Ele tem dinheiro mais que o bastante e nunca checa suas contas. Isso é trabalho meu. E não é como se ele não fosse te dar uma mesada para uso próprio. Apenas peça a ele.

Annia se encolhe: — Eu nunca tive nada próprio no complexo.

Então a Mamãe faz algo que totalmente me assusta. Ela abraça minha irmãzinha para dar conforto. — De agora em diante você pode comprar tudo o que quiser. E se o Magnus não te der, é só me pedir. Eu gastei alguns milhares de anos coletando tesouros.

Sacudo minha cabeça e me concentro em outra coisa. A nova versão da Cecília me é totalmente desconhecida. Isso é quando a porta para a berlinde de realidade se abre com força e Magnus caminho para dentro do saguão.

Primeiro quero berrar com ele, mas guincho em horror quando percebo o estado em que está. Há manchas de sangue por todo seu peito e suas roupas estão rasgadas. Armadura despedaçada está visível sob a roupa. Parece como se ele tivesse recebido um feitiço de força com nada mais que seu próprio corpo. — O que aconteceu com você?

— Nada. Apenas sai para descarregar um pouco. Tive um encontro com alguns trolls. Não se preocupe. — Ele agarra um pulôver ensanguentado no seu peito. Está abotoado como uma bolsa improvisada e cheia o bastante para estourar.

Mentiroso! — Trolls nunca fariam isso com você! Já te vi lutar!

Ele franze os lábios: — Tinha pelo menos cinquenta deles!

— O que é isso? — Me aproximo e agarro a bolsa improvisada a fim de encontrar o que ele está escondendo. Ele não solta e o tecido rasga. Cinco cabeças caem e eu salto para trás para evitar a bagunça sangrenta.

— O carpete! — Oilell entra em modo super ativa. Ela desaparece e reaparece de novo em um traje de borracha com utensílios de limpeza e uma bolsa de lixo em suas mãos. — O carpete é Caxemira! Se eu não for rápida o sangue nunca vai sair.

Uma das cabeças para diretamente na frente de Fiacre e Kath. Os olhos da criança se arredondam e arregalam como bolas de golfe. Fiacre rapidamente tapa seus olhos, mesmo sendo tarde demais. — Acho que você é jovem demais para ver isso.

Salto para frente e agarro o Magnus pela capa, o sacudindo enquanto canalizo todos os sentimentos ruins em raiva. — Por que você teve que ir enfrentar os invasores sozinho!? Pensei ter deixado claro que você não faria coisas perigosas assim sem mim! Eu estava morta de preocupação.

— Ai! Ai! Calma. Minhas costelas foram quebradas recentemente. Elas se curaram, mas ainda dói. Não quebre elas de novo. — Ele agarra meu braço.

Cerro meus dentes e o puxo para perto para olhar diretamente em seus olhos. — Se você aprontar dessas de novo, nos considere divorciados. Não vou te perder porque algum idiota conseguiu um tiro de sorte e eu não estava lá.

Ele sorri, tentando minimizar a situação: — Eram só cinco. Nada de especial. Já lidei com grupos assim muitas vezes nas minhas centenas de anos protegendo o este território.

Tina inclina sua cabeça e puxa seu lábio inferior. Ela estuda a cabeça de uma mulher com cabelos vermelhos e sardas em seu rosto. Se não fosse pela palidez da morte, ela teria sido uma beleza de se ver.

— Acho que conheço essa daí. — Ela estala seus dedos e aponta para a cabeça. — Essa não é a Marlene Baucheaux? A Invisível? Ela é notória por sua habilidade de canalizar vários feitiços de uma vez. Sua marca registrada é permanecer completamente indetectável enquanto ataca o inimigo com poderosa magia de força.

Magnus escarnece: — Ela não era tão grande depois de sua pedra de poder ficar sem energia. A princípio ela me pegou de jeito, mas um monte de poder não significa nada sem o cérebro para usar efetivamente.

Eu o solto: — O que aconteceu?

Ele puxa um enorme pedaço de obsidiana com runas finas inscritas nela. A pedra de poder está claramente vazia no momento, mas ainda posso sentir a magia residual de uma forte carga.

— Eles tentaram criar um acampamento fortificado. Ao mesmo tempo fizeram a ruiva usar a invisibilidade para se esconder e aguardar. Tive a má sorte de pular bem no esconderijo dela. Era uma armadilha para qualquer um que tentasse impedir a tentativa deles de criar uma Cabeça de Ponte.¹

Cruzo meus braços em frente ao peito e o encaro: — Então?

Ele não entende: — O que foi?

— Aprendeu a não fazer algo assim sozinho? Há três outras pessoas que podiam ter lhe ajudado. — Ele abre sua boca para negar, mas antecipo o que ele quer falar. Cutuco seu peito, fazendo ele vacilar. — Essas roupas em pedaços não me parecem ter sido de uma luta fácil. Ela rasgou seus escudos e te pegou de jeito. — O que eu teria feito se tivesse perdido ele? Nós não tivemos tempo juntos o bastante.

Annia levanta seu tablet. — Ei caras! Parem de lamentar sobre o passado e olhem isso! Isso é grande! Ela aponta para o tablet e aumenta o volume para que todos possam escutar o que o repórter no noticiário está dizendo.

— … por todo o mundo. Esses fae, ou fadas, clamam estarem protegendo a humanidade das sombras por milhares de anos. De acordo com eles, os humanos foram deixados deliberadamente no escuro sobre todos os seres sobrenaturais que os cercam…

A imagem muda para a face de uma deslumbrante fae fêmea. — Nossos governantes debateram dura e longamente sobre os prós e contras de esconder a comunidade sobrenatural do mundo. Nós fae temos que admitir que não somos inocentes em esconder nossa existência por milhares de anos. Mas ultimamente até nossos líderes tiveram que admitir que o desconhecimento da humanidade quanto aos sobrenaturais não é em seu melhor interesse. Isso é uma injustiça que nós fae não podemos aceitar. Nós somos pessoas extremamente corretas e decidimos que não podemos viver mais com um segredo desses. Os humanos devem saber que criaturas hediondas se esgueiram na noite. Eles devem ter a permissão de se protegerem. Como vocês podem se proteger contra algo do qual não estão cientes…

— Puta merda! Isso significa guerra total quando a comunidade sobrenatural superar o choque. — Magnus se aproxima do tablet e inclina sua cabeça, inspecionando o dispositivo. — Hmm… Não me lembro de ter comprado esse modelo. Mas eu tinha ele na minha lista de compras.

— Ahahaha… Eu posso ter pego algum dinheiro emprestado para comprar a versão premiu… — Annia admite com relutância.

Cecília se intromete: — Sim! Ela precisa de uma mesada enquanto está sob o seu teto. Ou você achou que ela estaria de acordo em ficar com as mesmas roupas velhas para sempre?

Magnus coça sua bochecha, pensando.

 — Eu realmente não tenho ideia do que uma jovem mulher precisa. Dez mil por mês são o bastante? Apenas diga para Oilell o que precisa e você vai ter.

Eu balbucio: — Pra que exatamente ela precisa de dez mil por mês? Ela não é uma administradora de uma grande companhia. — Eu nem tenho uma renda estável. Só peguei o que a Oilell me deu. De repente percebo que estou dependendo da riqueza do Magnus.

Magnus faz um gesto de desdém:

 — Eu só pensei que ela sempre precisaria dos computadores mais recentes por causa do hobby e linha de educação dela.

— Isso é o bastante para uma pequena fazenda de servidores — sussurra Annia como se dizer as palavras em voz alta fizesse seu sonho molhado estourar como uma bolha. — Minha própria fazenda de servidores.

— Tanto faz. Como minha esposa você também precisa de algum dinheiro próprio. Que tal vinte mil?

Nem sei o que fazer com tanto dinheiro assim! Eu roubei uma bolsa cofre do Gavin quando escapamos, mas desde que encontramos o Magnus não tive razão nenhuma para tocá-la. — Obrigada? Mas não ache que você vai poder escapar da nossa discussão sendo generoso!

Tina começa a gritar: — Apenas calem a boca! Os fae estão fazendo uma jogada enorme e vocês nem se importam? Quem sabe que outras mentiras eles contaram aos humanos! Nós estamos na beira de outra guerra sobrenatural!

— Eu não diria que estamos na beira. Os fae já deram o primeiro tiro — Magnus a corrige.

Eles continuam brigando, mas não escuto. Eu estive de pé o dia todo, me preocupando com o Magnus. De repente, me sinto tonta e começo a balançar. O que está acontecendo comigo? — Pessoal?

Ninguém me escuta, então cambaleio de lado enquanto o mundo se inclina na minha visão. Forço meus músculos a ficarem imóveis e meus dentes juntos. Então fico de joelhos e me curvo para frente, nauseada. Despejo meu café da manhã inteiro no chão antes mesmo de conseguir pensar em correr ao banheiro.

— Gyarrrr! O carpete! — Oilell está do meu lado de repente, esfregando o carpete com uma toalha molhada. Ele já pode ser uma causa perdida.

Magnus está ao meu lado, uma expressão horrorizada em seu rosto. — Você tá bem? Os fae inventaram algum vírus horripilante para atacar com armas biológicas?

Os olhos da Tina se arregalam e ela dá um passo para trás. — Eu não duvidaria disso.

Oilell para sua tentativa inútil de salvar o carpete. Então de repente ela está na minha cintura, seu ouvido pressionado contra minha barriga. — Oh, isso não é uma doença. Posso sentir através do meu laço à Casa de Bathomeus. Há um novo membro da família a caminho.

O quê!? Vomito e tento meu máximo para acertar a brownie com a comida restante. Mas Oilell é rápida demais para mim. Ela está de pé e sumida em um instante.

O rosto da Annia se contrai. — Eu sou uma tia? Sou nova demais pra isso!

— Eu sou uma avó! — Cecília bate suas palmas em alegria. Ela se vira para Tina. — Isso não é maravilhoso? Foi uma ideia tão boa vir aqui.

Tina esfrega suas têmporas com ambas as mãos. — Nãonãonãonãonão… Isso não está acontecendo. Eu não tenho ligação com esses birutas. Tenho que me focar nos fae.

— Quem se importa com porra da merda dos fae! Nós podemos cometer genocídio neles quando tivermos tempo. Eu vou ser pai! — Magnus me solta e assume alguma pose de vitória estranha, mas imediatamente se encolhe e põe seus braços em volta do peito. — Talvez não tão curado.

E então a realidade afunda. — Eu vou ser mãe? — Como isso é possível? Pensei que morreria sem filhos. Meu corpo inteiro começa a sacudir. Se é de excitação, alegria, ou choque, eu não sei.

Oilell volta ao saguão de entrada, empurrando barulhenta cadeira de rodas velha. — Por favor se sente, Ama. Não queremos que você se esgote demais!

Eu não estou doente e certamente não sou uma inválida! Meu último pedaço de autocontrole estoura e me ponho de pé, rosnando. Agarro a cadeira de rodas e tento acertar Oilell com a mesma, destruindo a cadeira no chão. A brownie mais uma vez prova sua agilidade, evitando minhas tentativas de acertá-la por pouco.

— Mestre! Impeça ela!

Ele sacode sua cabeça: — Não. Os olhos dela estão vermelhos. Você realmente aborreceu ela. Apenas aguente como uma boa browniezinha.

— É por isso que os outros não trabalham para Antigos! Mamãe sempre me disse que vocês não valiam os problemas. Por que eu não escutei ela? — Oilell esquiva mais uma vez. — Ela está danificando o saguão de entrada! Nós ainda precisamos dele para os festejos e a cerimônia!

— Eu já fiz ela realizar o ritual para se juntar ao clã. Não há necessidade de grandes cerimônias.

Oilell guincha enquanto eu quase a acerto. — Aquele ritual antigo bárbaro!? Não, você não fez. Foi pra lá que o Oink foi!

— Te falei que ele era um cadáver ambulante quadrúpede.


 

Tradução: Batata Yacon   | Revisor: Delongas

 


Anterior | Próximo


Nota:

1. Cabeça de Ponte ou Testa de Ponte é um termo de terminologia militar referente a uma posição provisória ocupada por uma força militar em território inimigo, do outro lado de um rio ou do mar, tendo em vista um posterior avanço ou desembarque.

4 ideias sobre “LOS – Capítulo 27

  1. Alex

    E incrível como essa novel consegue ter um capítulo tão simples/tranquilo e me fazer sair MT satisfeito dps de ler ele, tipo vale mt apena esperar uns dias só pra ler ele, de vdd mt obrigado pelo esforço Batata

    Curtido por 1 pessoa

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s