LOS – Capítulo 23

Anterior | Próximo


Capítulo 23:

~Viravolta~

 


 

“Ele olhou diretamente nos olhos da criatura e não se moveu. O Monstro elevava-se acima do homem, mais forte e veloz do que ele jamais seria. No final, foi quem piscou.”

— Uma Memória dos Antigos


***Caríntia***

***Sely***

 

Ainda estou em um estado de choque quando Magnus pigarreia. — O que acha, Sely? Não seria mais seguro para Annia e você se juntarem aos Rhondu? Eles são seus parentes afinal de contas.

Um calafrio corre por minhas costas. Isso é algum tipo de teste doentio que ele está me dando? Ou essa é a maneira dele ser generoso, me dando uma possibilidade de voltar? — Não fode! Por que temos que ir com eles? Ficar com os Bathomeus é ótimo até onde me diz respeito. Os Rhondu são uma entidade completamente desconhecida para mim. Eu sei o nome deles e que minha mãe é um deles. Mas é só isso. Eles podem ser piores que os Hammons! Vai se foder só por sugerir uma coisa dessa! Você não se confessou pra mim? Por que vai desistir de mim de repente assim?

Ele sorri: — Quem disse que eu permitiria que você partisse? E a foda pode ser arranjada.

— Se não aprender algum respeito, vai ter que fazer isso sozinho! — Estou razoavelmente certa que minha habilidade de me controlar é melhor que a dele. Ele vai estar se rastejando rapidinho.

Fiacre levanta a mão: — Não quero interromper o flerte, mas a menos que encontremos uma maneira de lidar com os Rhondu e os Baucheaux, estamos em um aperto. Enfrentar um clã inteiro por conta própria já é perigoso o bastante, mas dois de uma vez poderia acabar mal para nós.

Magnus cruza seus braços em frente ao peito. — Os dois querem a mesma coisa. Mesmo se invadirem meu território, terão que lutar um contra o outro. E essa berlinde de realidade é segura desde que não encontrem uma maneira de nos forçar a aparecer. Em uma guerrilha, temos todas as cartas.

Apenas espero que ele não esteja se superestimando. Proteger seu território contra alguns invasores é uma coisa, mas ter dois clãs guerreando é um assunto completamente diferente. — Não que escutarão se simplesmente falarmos pra eles que preferimos ficar aqui?

Fiacre brinca com seu cabelo, enrolando-o em volta de seu indicador. — Acredito que Cecília visitou os Bathomeus algumas vezes no passado. Já faz tanto tempo que é difícil lembrar. Eu teria que escavar os registros. Cecília era a chefe do clã Rhondu enquanto estava com eles.

Magnus levanta ambas as sobrancelhas. — Aquela mulher era uma chefe de clã? Ela é tão baixa e diminuta. Nunca teria adivinhado.

Minha mãe, uma líder de clã? Rio: — Não pode ser verdade. O feitiço deve ter mexido bem com a personalidade dela.

Fiacre assente: — Não posso julgar, já que não tive realmente muito contato com ela. De tempos em tempos ela prestava uma visita curta ao papai Hatlix. Talvez uma vez por século? Eu não prestava atenção. Hatlix frequentemente tinha visitantes do mundo todo. Ele deve ter viajado bastante quando era mais novo.

Magnus bufa: — Ele deve ter caminhado por todo canto a pé. Sempre me fez questionar por que ele tinha tantos amigos na América.

Fiacre sorri. — Ele provavelmente caiu no oceano e boiou todo o percurso até o continente. Piadas de lado, acho que tinha uma ponte de terra durante a última era do gelo. Papai era velho o bastante para ter usado.

Suas piadas são interrompidas de repente quando o telefone de Fiacre toca. Ela o tira de seu bolso e estuda a tela. — Não conheço esse número. — Então ela atende a chamada. — Pois não? Fiacre falando.

Alguns momentos passam enquanto ela escuta a pessoa que está chamando. — Quem é você? — Sua testa franze em surpresa. — Lamento. Não sou a Chefe do clã. Não, o Magnus é. Ele é o neto de Hatlix. Temo que não possamos fazer isso. A situação é um pouco complicada. Ele não gostará disso… Eu acho…

Ela leva sua mão ao microfone. — É a Cecília e ela quer falar com você, Magnus!

Ele toma o celular de Fiacre: — Sim? — Silêncio. — Não. — Ele escuta. — Não, ponto final. Não quer dizer não. Não há razão nenhuma. Elas não querem, então vão ficar. Este é o meu território. — Ele grunhe: — Isso é escolha dela. — Ele me oferece o telefone. — Parece que é sua vez.

Pego o telefone dele e o levo ao meu ouvido. — Alô?

— Você é a minha filha? Você está bem? — A voz da mamãe. — Eles acabaram de remover o feitiço de mim e descobri que tenho duas filhas.

Okay? Ela soa um pouco agitada. E preocupada. Minha mãe nunca soou preocupada. — Nós estamos bem.

— Não se preocupe. Nós vamos até você. Não precisa ter medo de nada. Você pode me dizer a verdade se alguém estiver te forçando a falar isso.

Okaaay. Ela definitivamente está um pouco confusa. — Mãe, eu tenho quase duzentos anos de idade. Acho que posso cuidar de mim mesma se houver um problema. Como eu disse. Nós estamos bem e bastante felizes onde estamos. — Aguardo pela resposta, mas o silêncio se estende. Percebo que minhas palavras foram bastante insensíveis.

Eles tiraram o feitiço dela, então ela ao menos tem qualquer memória de nós? Ela sabe que eu sou uma adulta?

A voz de repente fica baixa e séria. — Nós lidaremos com isso. Fale praquele bastardo que tem você em custódia que nós estamos a caminho! Ou ele nos recebe como convidados, ou encontrarei uma maneira de colocar minhas mãos dele! — E então a chamada cai.

Eu olho para o telefone. Então fecho meus olhos com força e os abro de novo. Isso era realmente a mamãe como deveria ser? — Talvez eu deva ficar feliz por ela estar enfeitiçada enquanto eu crescia. A última frase soou perigosa. Quase como uma maníaca. Espero que a impeçam de ficar agitada demais.

— O que ela disse? — pergunta o Magnus.

Me leva alguns segundos para reformular suas palavras. — Ela quer nos ver. Você deveria se preparar para convidados. Soou como se ela estivesse determinada a nos ver. Não posso nem começar a explicar o quão esquisito isso é. Especialmente vindo dela.

Magnus rosna: — Eu disse a ela que não recebo visitantes!

— Visitantes? — Oilell entra na sala. — Terei que preparar quartos?

A brownie é seguida por Annia e a garota. Oh, merda. Esqueci completamente dela. Minha irmã está dando mãos com ela e sorrindo como o Gato de Cheshire. — Oh, então todo mundo está aqui! Isso é ótimo. Me permita lhes apresentar Katharina, Kath para encurtar. — Ela puxa a garota para sua frente, a segurando por ambos os ombros. A criança está nos olhando, olhos arregalados.

Magnus cobre seu rosto com ambas as mãos, abafando sua voz. — Esqueci totalmente dela.

O choque do confronto agora acabado, a criança nos estuda com olhos sábios demais para sua idade. Ela inspeciona a sala, absorvendo seu vasto interior. — Onde eu tô!? Isso é o paraíso?

Fiacre se levanta e caminha até a garota. — Não, docinho. Isso é uma terra encantada com magia e todo tipo de criaturas fantásticas. Você quer explorar comigo?

Katharina encara a mão ofertada, não confiando na paz. Seus olhos vasculham a sala, esperando uma armadilha. — Não tem homens malvados de branco? Eles transformaram minha família em monstros.

Fiacre sacode sua cabeça: — Não tem homens malvados aqui.

A garota imediatamente vira sua atenção para o Magnus. — Ele me chutou!

— Você tentou me morder! Fique feliz que não te dei de comida pro meu dragão. Então seja obediente e siga a Fiacre, ou um chute será o menor dos seus problemas! — rosna Magnus.

Kath arqueja e pega a mão da Fiacre. Eu não concordo com os métodos dele, mas a criança parece escutá-lo.

Fiacre dá um olhar penetrante ao Magnus, mas não diz nada. Ela puxa a mão da Kath e elas deixam a sala. Annia cruza os braços na frente de seu peito. — Não assuste a Kath sem razão! E você não tem dragão nenhum!

Dessa vez é o Magnus que sorri: — Você realmente quer me testar?

Annia rola seus olhos e se apressa para fora da sala. Oilell a segue, enquanto brinco com o pensamento de impedi-las. Nós temos que informá-las do novo rumo dos eventos. Ou talvez não. Fiacre pode fazer isso. Não tenho nenhum impulso em particular de discutir o comportamento estranho da mamãe com minha irmã.

Apesar de antes já ser estranho e agora ela está agindo normal. Normal para ela. Talvez a pessoa que eu conhecia como Cecília tenha desaparecido. Tenho que dar uma chance para ela como uma pessoa diferente?

— Sobre o que você está pensando? — pergunta o Magnus. Ele ainda está ao meu lado no sofá, me estudando.

Cerro meus dentes. O que quer que essa nova versão da mamãe decida fazer, não posso mudar nada por enquanto. Ela vai aparecer e nós lidaremos com isso. Talvez ela precise de algum tempo para se reorientar. O feitiço deve ter deixado ela em um estado bastante fodido. — Acho que tudo que podemos fazer agora é esperar. É por isso que devemos usar o tempo para colocar sua oferta em prática.

— Oferta? — pergunta ele.

Suspiro e pego a mão dele, a guiando por entre minhas pernas. — Aquela oferta. — Então o beijo, me rendendo aos meus impulsos. Gastamos um longo tempo assim, simplesmente explorando um ao outro. Abro sua camisa botão por botão, enquanto ele recebe satisfação diabólica em me provocar. Tendo sua mão entre minhas pernas é tão bom que o pensamento dele é o bastante para me fazer estremecer. Liberto sua ereção e o esfrego para retaliar.

Isso foi um pouco demais. Ele silva e me vira. Eu aterrisso no chão. Qualquer protesto morre em minha garganta quando suas mãos agarram meus quadris. Acabo me encontrando de quatro, seus braços em volta da minha barriga. O ofego me escapa quando ele empurra para dentro, lentamente. — Eu poderia me acostumar com essa posição — sussurra ele, sua boca no meu ouvido.

— Você é pesado — reclamo. De repente ele enfia com força em mim e rapidamente perco qualquer interesse em falar. Me abro ao ato, correspondendo seu ritmo. Meu primeiro orgasmo foi alcançado com facilidade, mas ele não para. Ele até continua batendo contra mim, apesar eu estar tendo um segundo. É como nos nossos sonhos. Minha barriga toda está em chamas quando alcanço meu terceiro orgasmo. De repente seus braços se apertam em minha volta e o sinto pulsando dentro de mim.

— Eu te amo, Sely Bathomeus — sussurra ele.

Bathomeus? Rio: — Você não disse que eu deveria me considerar uma viúva?

— Não mais. Eu quero que você fique comigo. Não vá embora. Nunca.

Mordo meu lábio inferior como se houvesse algo a considerar. — Eu também te amo. — Um sorriso maligno aparece em meu rosto. — Mas apenas se você puder repetir sua performance no chuveiro.

 

***Caríntia***

***Magnus***

 

Guio Sely por um caminho apertado. É menos bem cuidado que aquele na direção dos aposentos dos servos. Esse daqui se parece mais com uma trilha comum atravessando uma floresta. — Oilell nãos gosta daqui, então essa florestinha provavelmente é o único lugar dentro da berlinde de realidade que não se pareceu com um jardim inglês.

— Pensei que você quisesse me mostrar algo. Por favor não me diga que você só me quer aqui fora para uma terceira rodada. E pra que você precisa do porco? Estamos procurando por trufas? — Sely aponta para o porco. Eu o peguei do curral da Mansão. Oilell é uma daquelas que/bota muita importância em ser autossustentável.

— Você verá. — Dou uma puxada na corda, dando mais motivação ao porco para seguir. — Nosso objetivo é uma maravilhosa lagoa no pé da colina. É bem paradisíaco, então eu simplesmente tenho que te mostrar.

Sely rapidamente apressa seus passos para me alcançar. — Vamos lá. Me diga por que está me trazendo aqui.

Já que a lagoa está à vista, decido lançar um osso. — Pensei ser hora de deixar você por dentro de outro segredo. É um pequeno ritual para se juntar aos Bathomeus. Uma tradição de família.

Isso captura a atenção dela.

— Um ritual para deixar oficial? Não precisamos de trajes e uma grande festa?

— Pah! Isso é coisa dos tempos modernos. Antigamente nossos ancestrais não tinham essas coisas. Havia apenas eles e a natureza. — Finalmente ponho o pé pra fora do matagal. A lagoa é azul celeste e a água, absolutamente clara. O centro tá tão profundo que não posso ver o fundo. Nem uma única onda perturba a superfície. Perfeito.

Ela ofega: — É lindo! Se eu soubesse, teria vindo nadar todo dia.

Franzo meus lábios. Não, eu acho que ela vai retirar essas palavras logo.

— Vem aqui pra margem e pega a corda do Oink. Segura ele firme para não escapar. — Dou a corda a ela e a instruo sobre os próximos passos. — O que virá agora pode ser um pouco assustador, mas se ouvir seus instintos você ficará bem. Apenas não se mova. Fique parada e mostre que não tem medo.

— Mostrar? Pra quem? E quem é Oink? — Ela pisca e vasculha os arredores, mas atende minhas instruções e fica parada.

— Oink é o porco. — Me apresso para a lagoa e me ajoelho, pressionando meu rosto na água. Então chamo, usando o tom gutural da primeira linguagem.

Retiro minha face e volto a ficar de pé. As ondas que criei estão se espalhando em um círculo perfeito, perturbando a perfeita superfície espelhada.

Quando algo se agita das profundezas da lagoa, recuo e fico ao lado da Sely. Seu corpo inteiro fica tenso quando a enorme cabeça irrompe na superfície. Olhos de serpente do tamanho de pratos primeiro me estudam, e então a Sely. Ela não diz nada, sua expressão congelada em um sorriso.

Lentamente a cabeça escamosa se levanta, revelando um pescoço longo e liso. Com uma explosão de movimento, a enorme criatura borra e dispara para frente. Uma boca com dentes do tamanho do meu antebraço se fecha mais rápido do que posso sequer reagir. Então a cabeça serpentina recua, mastigando.

O sorriso da Sely ainda está em seu rosto quando ela levanta a mão com a corda nitidamente cortada para inspecioná-la.

A wyrm baixa sua cabeça para nos farejar. Sua garganta vibra, fazendo a lagoa toda sacudir. Então ela engole o Oink inteiro, pele e ossos, mandando a enorme protuberância por sua garganta abaixo. Satisfeita, ela recua de volta para baixo d’água.

Sely aponta para o coto da corda cortada para a lagoa:

— Mas… que… porra… é… aquela… coisa?

Eu rio e lhe dou tapinhas nas costas.

— A mascote do clã. Bem-vinda ao clã! Parece que a Lindwurm aceitou sua oferta. Ela vai te ver como um daqueles que trazem a comida. Isso é uma grande honra. Todos que não dão comida a ela, são a comida.

— Lindwurm?

Me viro para voltar para a mansão:

— Oh, é o nome dela. Ela é uma wyrm. Frequentemente confundidos com dragões. É uma pena ela ser tão tímida. Só nos mostrou sua cabeça e um pouco do pescoço. Os wyrm são muito raros e preferem lagos a vulcões. Acho que tem um segundo em Loch Ness.

— Você não brincou quando ameaçou a Kath em jogar ela para um dragão!


 

Tradução: Batata Yacon   | Revisor: Delongas

 


Anterior | Próximo

2 ideias sobre “LOS – Capítulo 23

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s