LOS – Capítulo 22

Anterior | Próximo


 

Capítulo 22:

~Desperta~

 


 

“Há apenas uma diferença significante entre atacar um covil de dragão, ou o baú de tesouros de um Antigo. Em ambos os casos você pode certamente pilhar algo de imenso valor e ambas empreitadas muito provavelmente acabarão em morte. E é aí que fica interessante. O dragão vai apenas te queimar ou comer. O Antigo vai garantir que sua morte seja uma dissuasão para outros.”

— Uma Memória dos Antigos

 


 

***Noruega***

***Cecília***

 

Há vozes. Por que não podem me deixar dormir? Parece como se eu tivesse fechado meus olhos apenas a alguns minutos atrás. Forço meus olhos a se abrirem, o que toma um esforço considerável. Estou deitada de costas em uma câmara. Há um círculo mágico familiar no teto. Oh, não. Por favor não deixe isso acontecer de novo. Tenho que me levantar e fugir. Meu corpo dói quando tento me mover. É como se alguém houvesse forçado toda mana para fora de mim. Tudo que consigo fazer é mover minha cabeça e isso dói.

Apenas completa exaustão se assemelha a isso. Não obstante tento meu máximo para estudar a sala. Há uma porta e o cômodo está vazio, exceto pelos círculos mágicos pintados. Um no teto e um no chão, onde estou deitada.

E há pessoas. Pelo menos dez. Ow, ow! Agora me lembro porque minha garganta dói tanto. O bastardo me esfaqueou. Finalmente, consigo me focar nas palavras. Há uma mulher com cabelos castanhos. Ela está segurando um homem pela garganta, sacudindo-o como um brinquedo: — … e prometo que estriparei sua família se ela não estiver de volta ao normal! Tá me ouvindo? Vou obliterar o resto dessa mancha de bosta que chama de clã e vou encontrar o Gavin e acabar com ele.

A voz é familiar, mas não lembro de ela ser tão direta. Ela é a calma entre nós duas. — Mana? Falo em voz rouca. Minha garganta tão seca que parece uma lixa.

— Expurgamos todo o sistema dela de qualquer forma de magia. Ela ficará fraca por um tempo, mas a mente dela agora está livre — crocita o homem em seu agarro e aponta para mim. Ela vira sua atenção em minha direção com seus olhos arregalados. Tento sorrir e digo seu nome: — Tina

Tina o larga e corre para o meu lado. — Cecília! Se lembra de mim? Já estávamos temendo que você tivesse virado um vegetal. Você ficou fora por mais de um dia! — Ela toca meu ombro e a aceito. Os cabelos castanhos encaracolados e os lábios carnudos que atraem os olhos. Ela é maior comparada a mim, mas sempre fui a mais forte. Ser pequena significa que eu tinha que ser duas vezes mais feroz para ter o reconhecimento dos outros.

Mais de um dia para curar? Isso é bastante tempo se tratando de Antigos. Virando minha atenção para dentro, me concentro e tento avaliar a situação. A memória da escravidão é como um quebra-cabeças, mas a estranha bruma em torno da minha mente se foi.

— Sinto-me mais como eu mesmo do que já me senti em muito tempo. Mas eu realmente preciso de alguma água. E acho que nunca te vi tão agressiva.

— Depois de cem anos eu já tinha desistido. Pensei que algum acidente bizarro tivesse acontecido e te levado. Ou um assassinato. Ter você de volta é como um presente dos céus. — Ela ri e alguém lhe entrega uma garrafa. Bebo sedenta até minha garganta se sentir normal de novo. Não muda o fato que me sinto quebrada. Com sorte isso não é permanente.

Tento relembrar os eventos na conferência do clã. — Eles me levaram durante as negociações. Havia veneno na nossa comida. Não o bastante para nos matar, mas bastante para nos enfraquecer. A próxima coisa que me lembro, é a primeira vez naquele quarto… — Minha voz descarrilha.

Tina assente: — Você não tem que falar disso. Nós interrogamos todos e temos uma ideia muito boa do que você teve que aguentar. — Ela se vira para o homem massageando sua garganta. — Quando ele recuperar suas energias, tentaremos recuperar suas memórias. Apesar que de acordo com ele, as chances sejam poucas. O feitiço te colocou em um estado de sonhos, te deixando aberta a sugestões. Então a maior parte da sua escravidão será difícil de relembrar. Não importa o que façamos.

Cerro meus dentes e pego a mão dela: — Não tenho muita certeza se quero aquelas memórias de volta.

Ela vê algo em meus olhos e assente. Então gesticula para o homem e dois membros do nosso clã avançam e o prendem. Tendo feito isso, eles os guiam para fora da sala: — Nós dividiremos os prisioneiros e os distribuiremos entre os clãs restantes. Os Hammons estão em seu fim tanto quanto me diz respeito.

Tina passa um braço sob minha axila e me ajuda a ficar de pé. — Temos muito a discutir. Com você de volta, há a questão de quem é a chefe do clã agora. Tecnicamente essa responsabilidade volta para você, já que tinha a posição antes de eu ser forçada a assumir. E você é a membra mais velha do clã.

Eu balanço por alguns segundos até a náusea ir embora. Com minha irmã me segurando, consigo ficar de pé. De algum jeito.

Quando compreendo o significado das palavras dela, vacilo: — Temo que você terá que ficar como chefe do clã indefinidamente. Estar duzentos anos fora de contato é desorientador. Digo, até uma garrafa d’água é algo incompreensível para mim. Aperto a garrafa em minha mão.

Tento ao máximo soar confiante enquanto perguntas saem de mim. — Desde quando temos vidro flexível? Foram realmente duzentos anos? — Minha expressão esmorece e fica severa: — Eu realmente tenho duas crianças?

Eu sou velha. Tão velha que não sei exatamente o quanto. Eu estava lá quando humanos não eram nada mais que bestas que se juntavam em volta de um fogo. Minha curiosidade sem fim foi de grande ajuda em me manter atualizada com o mundo mutável. A maior parte dos Antigos são estáticos demais para se manter em toque com o mundo permanentemente. O que aconteceu comigo foi uma maneira realmente horrível de saltar no futuro.

A voz da Tina é baixa e séria: — Os prisioneiros dizem que é verdade. Você tem duas filhas.

Não consigo mais me conter e rio como uma lunática. Estranhamente, parece ser a melhor coisa a se fazer para lidar com a situação. Depois de um tempo consigo me acalmar. — Sinto muito. Não é como se eu estivesse afetada na cabeça. Bem, talvez um pouco. Mas isso é perdoável, dada as circunstâncias. Não estou certa?

Ela assente, então continuo a me explicar: — É só que deve ter bem mais de dez mil anos de idade e nunca tive uma única criança. E nunca me contive em tentar — Minha voz se enche de raiva. —, e então algum bastardo me sequestra, me estupra, e acaba sendo um parceiro compatível, me emprenhando duas vezes!

Calo minha boca com força para parar a bagunça de palavras. — Honestamente não sei como me sentir a respeito. Um lado de mim não se importa, outro quer dançar de alegria. Tenho duas filhas. Isso é mais do que jamais esperei para minha idade. Outra parte de mim quer encontrar o Gavin e rasgá-lo em pedaços, então esquecer que isso já aconteceu.

— Vai dar tudo certo. — Tida dá algumas ordens para as outras pessoas, mandando eles saírem. Não me lembro dela ser uma líder. Ela sempre foi minha irmãzinha, se escondendo na minha sombra. Mesmo eu sendo a baixinha. Parece que ser forçada a se impor sozinha a mudou. Ela cresceu e ficou mais forte. Talvez isso seja algo bom.

Percebo que nem todos os presentes são do nosso clã. Tina está tentando esconder minha fraqueza dos outros.

Quando ficamos sozinha ela me ajuda a sair do cômodo, sussurrando silenciosamente: — Eu assumi depois que você desapareceu. Procuramos por anos, mas não havia um único traço seu. Apenas um quarto vazio onde você e seus guardas deveriam estar. Alguns dias atrás recebemos uma pista, e informação começou a aparecer na web.

— Web? — pergunto.

— Um meio público de compartilhar informações. Como um aglomerado onde qualquer um que queira pode ouvir. O modo como a informação foi compartilhada foi inacreditavelmente insultante. Mesmo se acabasse sendo falso, eu tinha que reagir. Aparentemente suas filhas estavam prestes a compartilhar um destino similar ao seu. Mas elas escaparam e espalharam o conhecimento que tinham sobre os Hammons. Eu consegui convencer vários clãs a testar os rumores. E aqui estamos.

— Aqui estamos. — Tomo outro gole da garrafa. — Isso significa que minhas filhas estão bem?

A expressão de Tina fica sombria.

— A última coisa que ouvimos foi que elas desapareceram dentro do território dos Bathomeus.

Anuo: — Teremos que trazê-las de volta logo. Conheço um dos anciões deles. Os Bathomeus são pessoas ousadas, mas têm um código de honra severo. Eles não tratarão pessoas necessitadas com desrespeito.

Tina suspira e me guia por outro corredor. Não tenho ideia de onde estamos, mas parece ser um complexo subterrâneo. As similares com um labirinto devem ser propositais. Isso apresentaria um grande problema para invasores.

Finalmente, Tina fala: — Isso só mostra que você está realmente fora de contato. Os Bathomeus desapareceram décadas atrás. Algo eliminou o clã inteiro. Mas o Véu ainda está ativo e alguém ou alguma coisa mata cada Antigo que se atreve a entrar no território.

Paro de andar: — Você quer dizer que elas estão mortas?

Ela me cutuca para continuar andando: — Elas certamente estão vivas. Os rumores na web são detalhados demais. A pessoa que os espalhou deve ter vivido neste complexo por um longo tempo. Há apenas duas pessoas que escaparam daqui. Suas filhas muito provavelmente são a fonte para a informação que está sendo jogada na rede. Então elas estão dentro do território dos Bathomeus, e vivas.

No fim de outro corredor uma enorme porta de metal aparece, mas não me importo. Minha mente flutua. Hatlix era um bom amigo meu. Ele era velho e forte. Por algumas décadas nós até nos envolvemos. Infelizmente, ele era uma daquelas pessoas que se recusam a mudar com o mundo. Saber que ele simplesmente se foi é mais outro golpe para qual não estava preparada para lidar.

Tina tenta me acalmar: — Não se preocupe. Já usei os canais oficiais para exigir a soltura delas. Quem quer que governe aquele território as devolverá. Elas nos pertencem por sangue. É uma questão de honra garantir a segurança delas. E se nos ignorarem, irei lá pessoalmente e criarei um inferno.

— Antes de fazer isso, há alguma maneira de alcançar Aressi? — pergunto. Eu ficaria feliz se o anão velho estiver morto, mas ele é um daqueles caras que são espertos demais para morrer.

Minha irmã resmunga alguma coisa e puxa um estranho artefato de seu bolso. Isso me dá tempo para estudar seus trajes. Até agora eu tinha outras coisas melhores na cabeça do que me preocupar com moda. — É okay mulheres usarem calças?

Ela franze os lábios. — Depende da cultura, mas aqui na Europa não vai levantar sobrancelha de ninguém.

Talvez acordar duzentos anos no futuro não seja tão ruim. A primeira coisa que farei será me livrar desses robes.

Tendo terminado o que quer que estivesse fazendo, Tina leva o artefato aos seus ouvidos. Então se passam alguns momentos de espera. — Aressi! Não tivemos uma conversa em um bom tempo. É, claro… Olha, não quero te estressar, mas minha irmã quer falar com você. — Então ela pressiona o artefato no meu ouvido. Ela nunca gostou de lidar com Aressi. O velhote não é nada mais que um incômodo pra ela.

Não sei que fazer. O artefato claramente não é mágico, então simplesmente testo minha sorte: — Olá?

— Flor! Tão bom ouvir que você está viva e bem. Pensei que tivesse perdido a aposta. Sabe, aquela sobre quem de nós consegue sobreviver até o terceiro milênio. Você tem que me visitar assim que puder.

É a voz dele. — Eu vou, mas temo que levará um tempo para me recuperar. Não me envergonho em dizer que eles me deram um golpe pesado.

— Lamento ouvir isso.

Engulo em seco. — Na verdade, eu quero saber se você tem algum contato com, ou informação a respeito dos Bathomeus. Parece que minhas filhas estão no território deles.

— Hmmm. Tanto quanto eu queira ajudar, não posso. Conhecimento é valioso e alguém me pagou uma soma enorme para manter meus dedos fora daquela região. É um daqueles casos em que o vendedor de informações esperto decide receber o dinheiro e não saber nada ao invés de queimar os dedos.

Isso não é aceitável, então insisto no assunto: — Mas você tem um contato? Deve haver uma maneira de contatá-los seu anãozinho estúpido! Me fale, ou te visitarei pessoalmente e prometo que você não vai gostar do meu atual ânimo! — Okay, talvez tenha perdido um pouco a cabeça. Só um pouquinho.

Ele limpa a garganta audivelmente. — Talvez haja algo que eu possa fazer. Pelo preço certo é claro. Você ainda tem aquele diamante enorme, do tamanho de uma cabeça? O que você tomou daquele rei árabe?

Eu tenho? Olho inquisitivamente para minha irmã, que escuta a conversa. Ela assente.

Cerrando meus dentes, admito minha derrota: — tenho. Mas melhor você me dar crédito em troca de algo tão valioso. Vai te custar muito pra quitar uma dívida dessas.

— É inestimável! — sussurra Tina.

— Bom, bom. Acho que posso te dar crédito pelas próximas duas ou três décadas.

— Séculos! — Aumento o preço, silvando.

Acontecem alguns murmúrios no outro lado, mas então começa a ditar alguns números aleatórios para mim: —… 382. Entendeu?

— Não? O que foi? — pergunto, mas Tina se intromete: — Captamos, não se preocupe. Ela não tem ideia de telefones.

— É o celular da Fiacre. Tenha um bom dia. — Um som estranho soa e tina tira o artefato de mim.

Ela começa a interagir com a superfície brilhante. — Parabéns, Mana. Me lembre de não permitir que você saia para fazer compras sozinha. Você acabou de pagar dinheiro o bastante para fazer desse o número de celular pessoal mais caro da história do mundo.

Não entendo nada disso, nem me importo. Se a Tina não jogou minhas coisas fora, então tenho bugigangas desse tipo o bastante. E o diamante estúpido não é nada mais que isso. Apenas um pedaço de lixo brilhante. Não é como se fosse um artefato mágico com algum encantamento misterioso e desconhecido nele.

E a Fiacre está viva! Quando visitei o Hatlix, uma vez carreguei ela quando era uma bebê.


 

Tradução: Batata Yacon   | Revisor: Delongas

 


Anterior | Próximo

 

2 ideias sobre “LOS – Capítulo 22

  1. Leonardo Suzano

    opa desculpa por n ter parado para ler a algum tempo estava esperando acumular alguns capitulos caso contrario a ansiedade bateria muito forte

    Curtido por 1 pessoa

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s