LOS – Capítulo 20

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Capítulo 20:

~Incursão~

 


 

 

“Um mundo selvagem para selvagens.”

— Uma Memória dos Antigos

 


 

***Noruega***

***Cecilia***

 

Eu tremo em horror silencioso e tento comer. Gavin não tocou em seu prato. Ao invés disso está andando pela sala como um animal selvagem. É fácil demais imaginar seus aposentos como uma jaula e ele como um monstro. Me pergunto o que eu fiz dessa vez para merecer sua raiva? Ou por que eu tenho que estar aqui enquanto ele está em um estado desses?

Mastigando, eu aperto o garfo em minha mão enquanto lágrimas amargas escapam dos meus olhos. Eu tive batatas e carne, enquanto ele tem peixe. Ele come bastante peixe. Com sorte ele tem algumas deficiências por causa disso. Eu viso a carne que já está cortada em pedacinhos. Está sempre assim. Gavin é esperto o bastante para não confiar em mim com uma faca. E ele selou minha magia.

— Eles são todos incompetentes! — Ele pega um dos vasos chineses e o esmaga no chão.

Eu estremeço. Aquela peça era do Século XIV e em condições pristinas. O que exatamente aconteceu que o deixou tão furioso?

— E você- — ele está prestes a virar sua raiva para mim quando algo em sua camisa bipa. Xingando, ele puxa um estranho artefato e começa a falar. — Eu já disse que não devo ser perturbado quando comendo com minha esposa! O que você está falando? Que ataque? — Ele se arrebita, escutando. Após alguns momentos ele chia, e sussurra. — Como eles chegaram no complexo interno tão rápido!?

Eu também escuto cuidadosamente, tremendo. Mas não em medo e desamparo. Agora tremo em antecipação. Alguém está assaltando¹ os Hammons. Pode haver um fim a esse pesadelo sem fim. Eu procuro o quarto com meus olhos. Uma arma. Qualquer arma. Algo melhor que um garfo.

Gavin sai, ficando em frente à sala de jantar. — Escute, você ordenará todos a lutarem e então dará ordens apenas a nossos legalistas². Eles têm que usar os túneis de fuga e se encontrarem na casa segura. Nós teremos que cortar nossas perdas e realocar. Esse lugar perdeu seu valor no momento que as duas cadelas escaparam.

Eu me estendo ao lado da mesa do Gavin e agarro a faca de peixe. Ele gosta de comer peixe e o cozinheiro provavelmente pensou que uma faca sem fio não seria diferente de uma colher. É de fato uma melhoria pobre sobre o garfo, mas pelo menos parece firme o bastante para ser usada como uma arma perfurante. Eu não confio no garfo de filigrana que me deram. Provavelmente, iria apenas dobrar ao invés de perfurar pele.

Gavin volta a sala e vem diretamente em minha direção. Eu baixo minha mão e escondo a faca sob meu assento. Se eu for fazer algo para atrasá-lo, então tenho que fazer agora. Eu não tenho qualquer outra memória além de estar dentro desse cômodo. Meus olhos vagam à porta pela qual sempre saímos. Quem sabe o que vai acontecer quando eu tiver passado por aquela porta? Pode acabar me desmaiando assim que eu deixar este lugar.

Ele pega meu braço e me puxa pra cima. — Venha, nós temos que ir.

— Mas a comida? — queixo-me, permitindo que ele me puxe em direção à porta.

Quando ele se vira na direção da porta para me puxar com ele, eu ataco. Minha faca está mirada diretamente em sua coluna vertebral, o que é minha única esperança. Já que minha magia está selada, não posso superá-lo de nenhuma maneira. Mas se eu for só um pouco sortuda e incapacitá-lo, posso ganhar tempo o bastante para fugir. Ou matá-lo. Seria tão bom matá-lo.

A lâmina se afunda em sua carne e ele uiva. Eu sei que falhei. Senti o metal raspando o osso. Era uma esperança efêmera acertar o tecido mole entre suas vértebras. Era pedir demais. Também uivando, eu torço a lâmina de lado. Se nada mais, pelo menos causa dor a ele e me compra um pouco mais de tempo!

Minha demonstração de desafio encontra seu fim antecipado quando Gavin usa sua magia para apertar seu agarro em meu braço. Eu berro quando ele esmaga minha carne e osso como se eu fosse um inseto.

Ele se vira para me encarar e puxa a faca de suas costas. — Eu já tinha pensado que você estava virando a esposa perfeita. Você não tentou nada em mais de cem anos, mas só um pouquinho de informação vazada faz você se rebelar. Igual suas filhas inúteis. Acho que já tive o bastante do seu tipo. Eu ia deixar esse pequeno entreato passar, mas você não pode nem controlar suas próprias filhas. Eu deveria ter duas peças de troca. Ao invés disso não tenho nada. Então mesmo se você é uma cadela fértil, de que utilidade você serve se sua cria não pode ser usada?

Me empurrando, ele me força de volta à mesa de jantar até eu acertar a beira com minha bunda. Eu tento usar minha mão livre para raspar seus olhos fora. Isso, é claro, é apenas uma pequena inconveniência para ele me subjugar. Um golpe de costas de mão brutal e todo espírito combativo que eu tinha dentro de mim se esvai. Eu posso até ver pontinhos em minha visão enquanto ele me força esparramada contra a mesa e ele entre minhas pernas.

— Haah, você sabe que sua querida irmã muito provavelmente é a cabeça desse ataque? Ela realmente começou um inferno quando alguém soprou o apito de que você estava viva e em minha custódia. Então te levar comigo apenas significa que ela vai seguir como um cão sangrento. O que você acha que ela vai fazer quando vier através daquela porta? E você esparramada como uma puta nessa mesa, morta. — Ele enfia seus quadris contra mim e fico muito feliz pelo tecido estar atrapalhando.

— É uma pena que não há tempo o bastante para fazer a cena ser perfeita. Eu apenas terei que saborear minhas memórias. Afinal de contas, já tomei você de toda maneira possível. — Então ele martela a faca de peixe na minha garganta, me pregando na mesa.

Estranhamente toda a dor se esvai de repente quando ele tem sucesso no que eu falhei em fazer. O osso se parte e então eu não sinto nada abaixo do pescoço. Há apenas uma dor maçante, mas isso é okay. Eu pisco, atordoada, e ele ri.

Ele deixa a faca onde está e eu de repente percebo que não há necessidade de cortar minha cabeça fora.

Entro em pânico. O ferimento não pode fechar com a faca alojada no meu pescoço e eu não posso removê-la porque minha coluna está cortada. Enquanto a faca estiver dentro, eu não posso me curar. E meu corpo não pode forçá-la para fora porque ele a martelou na mesa. Tudo o que ele tem que fazer é só esperar e observar. Estou esvaindo sangue! Quanto tempo posso sobreviver sem sangue?

A vó Felícia não sangrou assim quando a casa desmoronou e a esmagou? Escavaram ela e a reviveram, mas ela nunca mais foi a mesma. Apenas uma idiota babona. Ela teve que reaprender tudo. Mas talvez um recomeço completo não seria tão ruim no meu caso?

Eu entro em pânico ainda mais diante do pensamento, mas tudo que posso fazer é mover minha boca. Como um peixe. Quero dar uma risada, mas nem isso funciona já que só tenho minha boca.

Gavin apenas me observa, esperando, se certificando que sou um caso perdido antes de partir. Eu paro de mover minha boca e foco minha visão reduzida no teto. Talvez ele se abstenha de mais medidas se achar que estou morta. A parte triste é que eu não tenho que atuar. Eu estou realmente partindo, minha visão está borrada. Isso é quando escuto a porta sendo chutada. Os atacantes alcançaram os aposentos dele?

— Merda! — Gavin se vira e desaparece da minha vista.

Meus olhos se fecham, trêmulos. Cansada.

Então a faca é arrancada da minha garganta e sinto mãos, mãos tentando parar o sangue. Alguém está berrando. Eles são barulhentos demais. Não consigo dormir.


 

Tradução: Batata Yacon   | Revisor: Delongas

 


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Notas:

1. Assalto no sentido de ataque.

 

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