LOS – Capítulo 16

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Capítulo 16:

~Comando~

 


 

“Nunca negocie sem uma vara.”

— Uma Memória dos Antigos

 


 

***Carinthia***

***Magnus***

 

Dessa vez escolhi um SUV cinza para dirigir ao local onde o Véu foi ativado. Não é a maneira mais refinada de aparecer em uma reunião entre dois clãs, mas eu gosto de ter alguma armadura ao meu redor. O SUV foi completamente reconstruído por uma companhia italiana que se especializa em blindar carros privados. Eu também adicionei alguma magia à armadura e às funções de segurança. Dessa vez eles podem lançar um foguete em mim e eu não vou nem tremer.

— É estranho. Agora que penso nisso, eu nunca encontrei outros residentes dentro de seu complexo de apartamentos. Apesar de haver montes de carros no estacionamento. — Sely murmura, ponderando o pensamento.

— Isso porque não há nenhum outro residente e todos os carros me pertencem. O complexo todo é meu. Comprei por causa da vista — respondo à pergunta implicada.

Ela esfrega suas têmporas. — Por que eu não estou mais surpresa? Seu território tem algum outro segredo do qual eu não esteja ciente?

É minha vez de rir: — Um monte deles! Demais para serem compartilhados em um curto período de tempo. Você saberá sobre eles pedaço por pedaço.

Faço a mudança para uma marcha menor e permito que o SUV desacelere. Quem quer que tenha irritado o Véu, o fez em um lugar onde não há pessoas por perto. Pelo menos eles têm a decência de escolher um local de encontro que possa ser alcançado por meios modernos.

Nosso destino é uma área onde meu Véu cruza com dois outros, não há uma enorme área neutra ao invés disso. Os Véus precisam ter uma forma mais ou menos oval. É um problema do feitiço que gera o Véu. Seria esforço demais criar um Véu com a forma estranha de um país humano. Não que os Antigos alguma vez tenham se importado com isso.

Então o ponto neutro do qual estamos nos aproximando agora, é a área onde meu território se sobreporia com os italianos Bacellos e os eslovenos Tsches. — Espero que sejamos capazes de entender seus pais? Quão velhos eles são? — Alguns dos líderes de clã são antigos, e por alguma razão, retardados o bastante para se recusarem a aprender novas línguas. Eles latem em alguma língua antiga, gutural e estragam qualquer chance de se ter uma rodada decente de insultos mútuos.

A expressão de Sely escurece. — Não sei. Minha mãe nunca me disse nada sobre si, exceto pelo fato de ser uma Rhonu. E o pai é velho. Pelo menos tão velho quanto sua tia. Mas não se preocupe. Ambos falam acádio.

— Isso é bom. — Pelo menos eles conhecem a língua internacional entre sobrenaturais. Tremo diante da memória do meu avô Hatlix. Sempre tive a suspeita silenciosa de que ele era algum tipo de elo perdido entre nós e os dinossauros. Ele uivava e chiava e estalava como algum animal, não se incomodando com qualquer forma de consoantes. Sem o pai, ninguém teria tido qualquer chance de entendê-lo.

Espero nunca ficar tão velho assim. Meu irmão até expressou a suspeita silenciosa que o que o Vovô não falava uma língua real, mas usava alguns meios primitivos de transmitir seus sentimentos. Algo que era usado antes de linguagem real ser inventada.

O SUV deixa a área florestada para trás, alcançando a altura onde as árvores cedem seu reino para gramas e arbustos. Isso é quando avisto três helicópteros que aterrissaram em um pequeno platô fora do Véu.

Sely se estica para obter uma visão melhor. Para meu desânimo, o pesado equipamento de combate nela não permite qualquer vista profunda. Insisti que ela vestisse armadura.

— Acho que os dois no centro são Cecília e Gavin. Os quinze guardas em volta deles não são todos dos Hammons? Pelo menos nove são dos nossos clãs servos.

— Clãs servos? — pondero.

Ela cora. — Desculpe, estou acostumada a chamá-los assim. Eles são dos quatro clãs menores que foram subjugados pelos Hammons.

Anuo, nada feliz com o pensamento de que seus vassalos estão dispostos a oferecer uma mão de ajuda em operações ofensivas. — Então quantos antigos temos que enfrentar em caso de uma guerra?

— Não estou certa de seus números reais, mas eles não podem ter mais de quinze pessoas por clã. Do contrário Gavin teria sérios problemas em mantê-los sob controle. Ainda é perigoso porque eles podem se unir e desafiar os Hammons. Então não mais de oitenta a noventa pessoas em total. Corte isso pela metade, por causa dos não combatentes. Além do mais, não acho que todos possam lutar. E eles precisam de pessoas para proteger seus territórios contra clãs vizinhos. Diria que esses quinze são tudo que podem enviar confortavelmente sem enfraquecer suas próprias posições.

Desacelero o SUV e o paro a alguns metros do Véu. — Estou razoavelmente certo que eles poderiam forçar caminho através do Véu se decidissem se esforçar nisso. Mas eles ficarão enfraquecidos e virariam alvos fáceis para o nosso lado. Apenas se lembre que você não tem permissão de deixar o território.

Ela cerra seus dentes diante do fato implícito de ela possuir liberdade de movimento limitada.

Então, nós saímos e nos aproximamos do Véu, parando dois metros na frente do mesmo. O casal também se moveu para frente e assim obtenho minha primeira vista de Gavin e Cecília. Posso dizer imediatamente que os cabelos negros de Sely vêm de Gavin. Ele é alto em comparação à esposa. Os olhos verdes azulados de Sely vêm de sua mãe morena, que é uma mulher baixa com características europeias e hispânicas. O corpo bem feito de Cecília, combinados a altura de Gavin, deram à Sely as proporções perfeitas pelas quais me apaixonei. Annia por outro lado está muito mais no lado da mãe nessa equação.

— Sua exibição de força não é um pouco pobre para ser contada como um grupo de recepção? Isso é tudo o que sobrou dos Bathomeus? Não é de se espantar que esteja se escondendo por trás do seu Véu. — Os olhos de Gavin esquadrinham a cordilheira, procurando por ameaças adicionais.

— É o bastante para seu tipo — mostro meus dentes para ele com um riso selvagem.

Gavin inclina sua cabeça, considerando. Então me põe de lado como não sendo importante. — Nós queremos nossas crianças de volta. E os artefatos. Eles nos pertencem.

— Usei eles como dote. Pode-se pensar que eu receberia algo para ser casada a outro clã. Não é culpa minha que eles não me levaram no final — responde Sely.

Observo a mãe da Sely. Ela parece estar interessada em tudo, os arbustos, as montanhas, mas não na nossa conversa.

Os olhos de Gavin lampejam em vermelho em raiva. — O Hórus é inestimável! Eu nunca daria algo assim para uma fêmea miserável como você. Já chega. Cecília, faça.

A mulher que parecia não estar prestando atenção à conversa dirige seus olhos para Sely. Então fala com poder em sua voz. — Venha aqui, criança.

Eu franzo meus lábios, ofendido pelo fato deles terem ido tão baixo a ponto de tentar isso. Cada fêmea dos Antigos possui uma quantidade limitada de influência mental sobre sua prole. A experiência de estar no lado que recebe é bastante desagradável. É por isso que é visto com maus olhos se utilizar essa habilidade tão descaradamente. Para coroar, não dura muito e também perde a força quanto mais velha a prole fique. Já que o controle não é de nenhuma maneira perfeito, é muito provável que filhotes que são abusados regularmente por tais meios enfiem uma faca nas costas de seus pais cedo ou tarde.

Não é realmente tão impressionante, exceto para impedir criancinhas de fazer algo estúpido. As se tratando de controlar crianças é o santo graal de cada genitor. Especialmente se as crianças são capazes de lançar magia letal neles e não compreendem o que estão fazendo.

A perna de Sely dá um puxão para frente, mas ela permanece no lugar. Do canto dos meus olhos, percebo seu rosto ficando vermelho e uma veia em sua têmpora se estufa enquanto ela luta contra o comando. Foi bom não termos trazido a Annia. A garota teria caminhado diretamente para o lado de sua mãe como um zumbi. Cecília deve ser realmente poderosa se ainda tem tanto efeito assim em Sely apesar da idade de sua filha.

— Quem disse que ela tem permissão de partir? — Levantando a mão, a fecho em torno do pescoço de Sely e envio uma pequena sacudidela de energia através de seu sistema para quebrar o controle. Ela murcha visivelmente e recua, levemente atrás de mim.

Gavin retorna sua atenção a mim. — Ela é minha. É minha decisão usá-la como quiser. Ou você quer me compensar de alguma forma por minhas perdas?

Decido me render aos meus instintos. O desejo penetrar meus dentes através da garganta dele cresceu desde que ele me pôs de lado como não sendo importante. Talvez ele esperasse poupar suas próprias forças ao usar seus clãs servos como guardas, mas isso lhe custará caro. Se eu deixar suas deficiências óbvias, então ele logo poderá ter suas mãos cheias em tentar manter controle de seus bens.

— Fracote — rosno para ele, oferecendo o insulto máximo para um chefe de clã. — Você não consegue nem manter suas próprias crianças sob controle. Seu próprio povo foge de você. E então você me insulta violando meu território e tentando me assassinar. Ninguém entra no meu território sem permissão. Eu tomarei seus artefatos e suas filhas como compensação. Permitirei que parta agora.

Gavin se aproxima. — Você tem tanta sorte que magia ofensiva não funcione através do Véu, ou eu teria lhe ensinado uma lição.

— Não é você quem não aprendeu sua lição? Você enviou oito homens ao meu território, e só um voltou porque correu como um cachorro com o rabo entre as pernas. Como ele está, Gavin? Foi ruim para a saúde dele ter se forçado através do Véu por conta própria? Ele deveria estar completamente apavorado para arriscar isso.

— Essas negociações estão obviamente em um impasse. Prepare-se, criança. Cecília, partamos. — Ele se vira e caminha de volta para os helicópteros. — Sim, Gavin. — Cecília para seu estudo dos seixos no chão e o segue. Os guardas também recuaram.

Sely dobra seus dedos. — Isso não foi bem.

— Tão bem quanto esperava. Ele até me ameaçou, então não me sinto mal pelo que vem depois. Eu me viro e volto para o SUV, onde abro a mala espaçosa do carro. Os helicópteros já estão acelerando seus motores, então devo ser rápido.

Sely me observa, boquiaberta, eu puxo o largo baú e o abro. O Véu pode impedir magia ofensiva, mas esse é um item de pura física.

— Isso é uma bazuca!?

— Pode estar certa pra caralho que é! Eu estava esperando para devolver o favor deles com o lança-foguetes! — Dando a volta na SUV, eu alinho o tubo com os Hammons se retirando. Um dos guardas berra, mas já pressionei o gatilho. O foguete dispara do lançador, chiando rumo ao helicóptero que está prestes a ser adentrado por Gavin e sua esposa.

Alertado pelo guarda, eles se jogam para o lado bem a tempo. O helicóptero, junto com seu piloto, não tem tanta sorte e uma chuva de destroços cobre a área com uma enorme explosão. Então os guardas puxam pistolas e eu puxo Sely para trás do SUV. As balas salpicam o carro enquanto recarrego a bazuca.

Sely me sacode pelo ombro. — O que você está fazendo!? Agora eles ficarão no caminho da guerra!

— Pah! Você realmente quer me dizer que o Gavin desistiria? Ele disse que eu deveria me preparar. Certamente não vou me reclinar e esperar ele vir com um plano sórdido. Eu entrei em guerra com ele no momento em que entraram no meu território à força. — Armo a segunda granada e dou uma rápida espiada em volta da SUV. Mostrar minha cabeça é imediatamente recompensado com pelo menos uma dúzia de balas. O som de tiros me diz que um dos filhos-da-puta trouxe uma SMG.

Quando me levanto para o segundo tiro, faço mira sobre o teto do SUV. Sou forçado a atirar rápido sem saber onde Gavin está. Nossos convidados que se apertam nos dois helicópteros restantes, estão decolando enquanto esvaziam suas armas em meu carro. Eu escolho aleatoriamente uma das máquinas recuando e atiro.

E de repente as luzes se apagam.

Quando recupero a consciência, estou deitado de costas. Sely está batendo nas minhas bochechas, chamando meu nome. E tenho uma enxaqueca. Uma das ruins. — O que aconteceu?

Ela mostra um pequeno fragmento de uma bala. Só uma parte da ponta. Penetrante pelo que parece. — Você levou isso na testa. Temos que nos comunicar melhor. Você deveria ter me dito como usar o lançador. Eles foram embora antes de eu conseguir recarregar. Apesar de que seria improvável em conseguir acertá-los de qualquer jeito.

Eu pego o fragmento e o inspeciono. É a primeira vez que levo um tiro na cabeça. Isso não é acompanhado normalmente com alguma perda de memória? Talvez apenas aconteça em casos de danos graves? — Por que você não pode usar uma bazuca? É a única arma certa de abater um Antigo.

— Porque há vários tipos dessas coisas. E eu tinha outras coisas a mais na minha mente do que treinar em todos eles. Especialmente não em um modelo estranho da segunda guerra mundial. — Ela puxa minha mão e me ajuda a ficar de pé.

— Pensei que não seria ruim usar meus restos neles. Trocar equipamento completamente bom não é uma das minhas coisas favoritas de se fazer. Quem dá a mínima pra funções modernas de segurança? — Estudo a carnificina. Dois helicópteros estão destruídos, mas quase não há baixas. Um destroço está no platô conosco, os pedaços do piloto por todo o lado. Outro parece ter colidido cem pés mais acima na montanha. Infelizmente, não vejo muitas baixas. — Acho que seria pedir demais ter abatido o Gavin?

Ela sacode sua cabeça. — Eu não acredito nisso. Alguns sobreviveram à queda do segundo helicóptero e fugiram a pé. Não pude impedi-los porque estou presa dentro do Véu. — Sely está surpreendente calma, dado o fato de que acabei de tentar matar seus pais. Ela não minimizou seu relacionamento com eles quando me ofereceu sua história de vida. Eles não são mais que nomes para ela.

— Isso é bom. — Não quero que ela os persiga.

— Então o que agora — bufa.

Eu estalo minha língua. — Agora nós faremos algumas ligações e empilharemos tanta merda na soleira do Gavin que ele desejará nunca ter começado isso.

Sely bate suas unhas na SUV, me olhando com olhos de questionamento. Não há necessidade dela pedir mais explicações. Seu rosto diz tudo.

Eu simplesmente respondo à questão implícita: — Primeiro, ligaremos para o clã de sua mãe e questionaremos se eles estão felizes que sua antiga membra está sendo mentalmente apagada pelo marido. Melhor fazer isso anonimamente, porque pretendo rir deles. Quanto mais forem provocados, melhor. Então usaremos o sobrenatural.com da Annia para dar a todo o mundo sobrenatural uma ideia exata do que aguarda suas mulheres caso se casem ao clã Hammom ou seus aliados.

— O que você quer dizer? Cecília está mentalmente apagada? — A expressão de Sely vacila.

— Você não notou? A maneira como ela estudou o cenário e estava interessada em tudo além das negociações?

A bochechas de Sely espasmam: — Ela sempre foi assim. Distante, focada em seus próprios pensamentos.

Eu anuo: — Certo. Até o Gavin dizer para ela te dar uma ordem. E após te dar a ordem, imediatamente voltou a estudar as pedras no chão. Porque elas são tããããããão interessantes! Isso não é nenhuma maneira normal de se agir. Talvez você nunca tenha pensado a respeito porque não a conheceu de nenhum jeito diferente. Você cresceu com ela. Nunca cruzou sua mente que a Boneca Sely não foi o primeiro dos experimentos do Gavin? Talvez Annia e você não sejam os experimentos um e dois, mas cinco e seis? Você disse que ele já tem quatro esposas. Há alguma outra mulher no clã dele agindo de forma estranha?

Ela me olha com uma expressão vazia, então seus olhos se focam no horizonte em uma tentativa de relembrar cada interação que já teve com sua mãe. De repente seus olhos lampejam em vermelho e seu queixo treme com raiva muito mal controlada. — Bastardo! Ele é um Bastardo! Por que eu sou tão estúpida!? Por que eu não vi isso? Eu…

Suas mãos caem para seus lados. Em uma tentativa de se acalmar, ela expira e inspira algumas vezes. Dou a ela o tempo para recuperar o controle. A última coisa que preciso é uma Sely enfurecida que tenta quebrar o Véu em uma tentativa de caçar seu pai. Finalmente, ela se vira e entra na SUV. — Nós temos que sair daqui. Os humanos ficarão chatos se nos encontrarem com os helicópteros e um lança-foguetes antigo na nossa mala.

Eu concordo e assumo o assento do motorista. Não comento o fato de que meu belo SUV parece muito suspeito. Quase como se uma dúzia de Yakuzas com várias pistolas semiautomáticas e rifles tivessem decidido que meu carro é uma afronta ao mundo. Estou tão feliz por ter escolhido os pneus de borracha sólida


 

Tradutor: Batata Yacon   |   Revisor: Sr. Delongas

 


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