LOS – Capítulo 15

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Capítulo 15:

~Lados~

 


 

“Não há bom ou mau.”

— Uma Memória dos Antigos

 


 

*** Noruega, Residência Hammon***

***Cecilia Hammon***

 

Adentro os aposentos de Gavin como fiz tantas vezes antes. Meu corpo move-se em piloto automático para a larga mesa de jantar. Gavin fica furioso se não estiver na mesa quando entra na sala. Não quero que ele fique furioso. Ele é meu marido e é minha obrigação fazê-lo feliz. Imediatamente me sinto melhor assim que me sento. O desejo irresistível de fazer como me é ordenado se reduz em força. Não tocando a comida, apenas me sento lá, aguardando.

Enquanto descanso, a estranha névoa em torno de minha mente se dissolve e começo a sentir mais como eu mesma de novo. Saboreando a sensação, fecho meus olhos e tento relembrar minha família.

Meu clã certamente virá por mim quando descobrirem onde estou. Eles precisam. Seria inaceitável permitir o sequestro de um dos seus. Deve haver algum tipo de retaliação. Do contrário eles parecerão fracos.

Eu me balanço para frente e para trás enquanto aguardo o inevitável, alegre e desesperada ao mesmo tempo. Estou feliz porque quando estou neste cômodo meus pensamentos parecem mais claros que nunca. E estou desesperada porque tudo mais sobre meu tempo com os Hammons é apenas uma névoa obscura de memórias. Eu mal consigo fazer qualquer sentido disso. Há pessoas e conversas desconexas, mas elas não carregam significado.

Até meus instintos estiveram em silêncio desde que Gavin me tomou.

Um amontoado de papéis atrai minha atenção e espio o corredor pelo qual Gavin virá. Eu posso dar uma espiada e voltar aos assentos quando ouvir a porta. Ele nunca saberia. Estou de pé e no lado dele da mesa antes que possa racionalizar mais minha decisão. Provavelmente eu apenas arrumaria uma razão para não me levantar e investigar.

Tristemente, os papéis acabaram sendo inúteis. Não conheço a linguagem. Apesar de haver algo de estranho sobre o documento. É a caligrafia. Essas letras são traçadas com fina perfeição, cada uma idêntica. Há até ilustrações detalhadas, apesar de não entender o porquê de o criador da escrita não ter usado cores. Eu esperaria encontrar algo de tal qualidade em um livro, não em algumas folhas de papel que obviamente têm apenas algum fugaz, propósito informativo. Meus olhos permanecem colados ao papel. Há um pedacinho de informação que posso entender. Os números. Sempre gostei mais dos números arábicos do que dos romanos.

Eu fico lá, olhando para o papel até ouvir a porta. Vacilante, cambaleio de volta para meu assento. Então me foco na parede, esperando que ele termine logo.

Gavin entra na sala e sorri. Ele senta-se em seu lado da mesa e comemos em silêncio. Quando ele termina, caminha em torno da mesa e me levanto para acabar logo com isso. Mas ele me empurra de volta em meu assento e fica atrás de mim, suas mãos em meus ombros. — Esse não é um daqueles entardeceres, Cecília. Nós usaremos todo nosso tempo para fortalecermos nossos laços. Afinal de contas, iremos em uma pequena viagem.

— Uma viagem? — ecoo como um disco quebrado.

— Sim. Você é uma conquista muito valiosa, Cecília. Nenhuma das minhas outras esposas me deram duas crianças em um período tão curto quanto você. Mas suas pirralhinhas são rebeldes. Totalmente diferentes de você. Temo que essa rebeldia venha do meu lado da união. Nós temos que ir trazê-las de volta. Pelo bem do clã. Do contrário pareceremos fracos. E você usará seu poder como mãe delas para ordená-las. Isso deixará as coisas muito mais fáceis. — Suas mãos sujas vagam até minha clavícula e ele começa a me massagear.

— Eu tenho crianças? — crocito, tremendo. Eu não tenho crianças nenhumas.

— Cecília. Não se preocupe. Tudo vai ficar bem. Não há razão para ficar chateada. Eu fortalecerei o seu feitiço e você ficará totalmente feliz de novo. Os episódios nessa sala são apenas necessários para dar a sua mente um pouco de tempo para relaxar. Do contrário você quebraria. Você não me seria de utilidade nenhuma como uma boneca apática. — Ele me puxa de pé e me permito ser arrastada até a outra porta. Aquela pela qual sempre tenho que deixar a sala.

Meus olhos vagam de volta para os papéis e os números que reconheço como uma data. É Novembro de 2024. Era 1789 quando ele me levou.

— Shhshh… você está muito transtornada hoje. Não tenho ideia do que te deixou tão irritada, mas consertaremos isso.

 

***Carinthia***

***Magnus***

 

— Do que se trata essa festa? Sua força policial parece bastante excitada com isso — pergunta Sely enquanto guiamos Annia de volta para a mansão.

Dou de ombros. — É uma invenção humana para dizer a verdade. Os Krampus só a estão utilizando para sua própria conveniência. Há um rito entre as pessoas nesta região. É similar ao Halloween, mas um pouco sombrio. Os jovens se disfarçam de Krampus enquanto um banca o Papai Noel. Papai Noel dá guloseimas para as boas crianças, enquanto os Krampus punem as levadas com suas varas e sacos. Algumas fantasias parecem tão realistas que não é grande coisa para os Krampus reais se juntarem à diversão.

— Hoje em dia eles têm rotas isoladas para seguir. Mas isso deixa ainda mais divertido quando algumas almas corajosas decidem testar suas sortes ao pular sobre a barreira. Não é preciso dizer que os Krampus respondem a tal ofensa com suas varas e chicotes. Os humanos se divertem festejando enquanto isso, julgando as fantasias.

Sely sacode sua cabeça em descrença. — É um espanto que ninguém tenha descoberto a verdade. As comunidades sobrenaturais iriam querer se vingar por revelar suas existências.

Rio e tomo sua mão e cruzo os braços com ela. O estranho impulso de fazer isso me surpreende. Mas é bom. — Todos nos Alpes estão fazendo isso. Não é como se esse vale fosse o único que realiza esse evento.

Nós entramos no meu apartamento e voltamos para a mansão. Ainda estou em meu próprio mundinho com a Sely quando alguém ofega e Oilell aparece com o familiar staccato de seus pés no chão. — Você conseguiu! Já chegou na segunda base? Posso arranjar uma cerimônia? Você tem que me dizer com pelo menos uma semana de antecedência, para que eu possa me preparar.

A brownie dispara para Annia que estava nos seguindo em silêncio. — Eles te contaram alguma coisa? Por favor, eu tenho que saber!

Annia sacode sua cabeça, nos julgando com uma expressão descrente. — Eles agiram de modo estranhamente íntimo quando me tiraram da cadeia. Eu estava surpresa demais pra perguntar qualquer coisa a eles.

— Cadeia!? — Oilell exclama, tocando Annia por todo o corpo em busca de ferimentos. Finalmente, a garota explode e tenta estapear a brownie. É claro, Oilell evita cada golpe com velocidade sobrenatural.

Sely morde seus próprios lábios. — Desculpe, Annia. Suas circunstâncias me fizeram esquecer de te informar. Magnus e eu decidimos nos testar em um relacionamento. A atração física é inegável e é melhor explorar nossa compatibilidade do que manter nossos instintos em cheque.

Eu sorrio e puxo a Sely para mais perto. — Não tenho certeza se seria capaz de fazer isso.

A expressão de Annia é épica. É como se alguém houvesse desenhado uma lâmpada acima de sua cabeça e a acendido. — Vocês querem dizer que nem na capela-

Sely rosna. — Ninguém jamais mencionará aquele evento em particular nunca mais. Entendeu?

A irmãzinha fecha sua boca e assente veementemente: — Meus lábios estão selados! Brigada, Mana! — Ela corre e abraça a Sely. — Isso significa que podemos ficar pra sempre! Não é? Eu nunca, nunca vou esquecer seu sacrifício!

Sely afaga a cabeça de Annia com uma expressão de conflito em seu rosto. — Não faça soar como se eu estivesse fazendo isso apenas para ficar aqui.

De repente Oilell se junta ao que, de alguma forma, se tornou um abraço grupal. — Eu sabia que o Mestre te convenceria a ficar.

— Oilell! Perto demais. — chio e enxoto a brownie pra longe. Então estendo a mão para meus cigarros. Só porque não tenho escolha nenhuma além de tolerar todos eles, não significa que de repente eu seja do tipo que abraça.

Sely toma os cigarros da minha mão. — Esqueci de mencionar que nosso relacionamento inclui uma proibição em fumar. Essa coisa fede e você também.

Eu quero dar a ela uma resposta esperta quando sinto algo puxando o Véu. Se repetindo em rápidos pulsos de três. Alguém está batendo na minha porta. — Sinto muito, mas alguém está no Véu. Tenho que ir e investigar as intenções deles. — Me liberto delas.

Sely é rápida em me seguir.

— Eu vou com você.

— Eu também! — Annia segue.

Me viro e respondo em uníssono com Sely: — Não!

A adolescente é pega de surpresa, mas Sely a abraça. — Certamente são os Hammons. Por favor, apenas fique aqui onde é seguro. Não deixe a berlinde de realidade. Vá para a casa da Fiacre.

Eu ranjo meus dentes à menção de minha tia. Estranhamente, o pensamento dela não me faz perder a paciência. Annia consente de má vontade enquanto ainda estou maravilhado sobre esse novo desenvolvimento. Um mês atrás eu teria saído correndo, cuspindo maldições e ácido a tudo e todos.

Sely se vira para me encarar. — Vamos.

— Eu preferiria que você ficasse aqui com a Annia. — Anuncio meus sentimentos sobre o assunto. Sely é minha agora. Não tem como eu permitir que qualquer coisa a machuque.

Ela sacode sua cabeça. — Não seja estúpido. Eles são meu povo. Eu os conheço.

Mastigo o interior do meu lábio. — E se eu apenas disser a eles que matei vocês duas e que eles têm que ficar longe do meu território?

Sely bufa: — Sério? Vamos ter que nos esconder para sempre dentro dessa berlinde de realidade? Você vai nos aprisionar? E além disso, Annia já deu vários passeios pela cidade e acabou na cadeia. Não tem como nenhum dos sobrenats não terem notado sua herança. Cedo ou tarde, mercs ou caçadores de cabeças, ou alguma outra pessoa vai vazar a informação que nós estamos vivas e bem. Eles terem se retirado pelo momento, não significa que não voltarão. Tenho certeza que eles possuem seus espiões na região.

Talvez tenha sido uma má ideia permitir que a Annia saísse. Mas ela estava tão feliz sobre se encontrar com a neófita da Eva que nem cruzou minha mente prendê-la. Pelo que entendo, ela esteve trancada no complexo toda sua vida. Eu deveria organizar mais proteções para ela mesmo assim. Parece um pouco tênue ter apenas um dos espíritos guardiões preguiçosos a seguindo. Os espíritos são poderosos, mas só um nunca poderia conter um ataque determinado. Eles são mais como cães de guarda do que guarda-costas reais.

E hoje eu conversei com vários sobrenaturais enquanto Sely e eu procurávamos pela Annia. Eu lidei com tudo sem uma única folha de maconha. Não arranquei cabeça nenhuma nem estripei ninguém. Okay, quebrei um ou dois dedos, mas só porque a atendente na estação de polícia trabalhou com a velocidade de uma preguiça.

No todo, me mantive calmo e composto. A Sely realmente tem um efeito tão forte em mim? Se eu tivesse sabido que uma única fêmea pode acalmar a maior parte dos meus problemas mentais, eu teria roubado uma faz tempo. Franzo minhas sobrancelhas e considero o que aconteceria se os caras no Véu realmente forem os Hammons e eu acabasse massacrando eles. — Okay, mas você terá que se equipar.

 


Tradutor: Batata Yacon   |   Revisor: Sr. Delongas


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