LOS – Capítulo 11

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Capítulo 11:

~Exploração~

 


 

“O corpo é apenas uma máscara que mostramos ao mundo.”

—Uma memória dos Antigos.

 


 

***Caríntia***

***Sely***

 

Oilell acabou sendo uma indivídua intrometida. Mesmo agora na mesa do café da manhã, ela está adulando Annia e eu como se fôssemos rainhas. Nós duas obtivemos os quartos mais largos que encontramos até agora no castelo. Eu não posso reclamar, mesmo não tendo terminado de explorar o lugar ainda. O fato se mantém que o lugar é perturbadoramente vazio.

“Quantas pessoas exatamente viviam nesta mansão?”

A brownie sorri com uma impressão triste em sua face.

“A família principal consistia de trinta e um indivíduos com Edan Bathomeus como chefe do clã. A família filial com quarenta e quatro membros era liderada por seu cunhado, Kelvyn Bathomeus, originalmente Kelvyn Armanno. Ele se casou ao clã, vindo da Itália ao tomar a irmã de Edan, Fiacre Bathomeus, como sua esposa. Normalmente as mulheres se mudam para os outros clãs, mas Edan não confiou que os Armannos a tratariam bem.”

“Wow. Isso é bem grande para um clã de Antigos. Até os Hammons têm… tinham apenas cinquenta e dois membros.” Acho que tenho que subtrair os sete que morreram quando tentaram nos levar de volta. Magnus nos informou ontem que um dos nossos caçadores escapou, o que explica porque ele nos recebeu. É provável que ele já tenha uma guerra com os Hammons em suas mãos, simplesmente por matar os deles. Apesar de eu achar que apenas matá-los possa ser visto como defesa de território.

Não acho que o chefe do clã deixará isso de lado de qualquer maneira. Não com o que está em jogo. Nós, os artefatos, sua reputação… ele tem muito a perder. Eu olho para cima e estudo o grande salão de jantar com apenas Annia, Oilell, Magnus e eu. Magnus estava certo quando disse que não queria morar aqui. Mesmo com nós quatro, tudo parece grande demais.

“Então, o que aconteceu com o clã Bathomeus?” pergunto. “Eles tinham contato com outros clãs até o final da Segunda Guerra Mundial. Então eles caíram em silêncio e o Véu foi fortalecido, permitindo entrada apenas a Antigos com determinação séria.”

Magnus estuda a parede de seu lado da mesa.

“A família filial se rebelou e tentou matar a família principal.” declara com uma voz seca, seus olhos focados em algo longínquo.

 

***Caríntia***

***Magnus***

 

“Eu odeio esses banquetes familiares, Pai.” Eu reclamo e gesticulo com minha taça de vinho no salão de jantar. Os membros reunidos do clã estão festejando e cantando, se divertindo. Eu friso os cantos dos meus lábios para baixo. “Eu acho que não seria tão ruim se pelo menos um deles tivesse aprendido a cantar nos últimos quinhentos anos.”

O Pai ri e me dá um tapinha nas costas com uma de suas mãos que parecem patas. Ele é um homem grande, e forte. Eu sei que o gesto não foi feito com significado rude, porém, não obstante, me fez cambalear para frente. “Você tem que aprender a se divertir jovenzinho. Onde que eu errei com meu quintogênito? Você simplesmente não consegue apreciar um bom banquete céltico!”

Eu sacudo minha cabeça e tomo um gole do vinho. “Não é errado se manter com os tempos. Caso contrário nós podemos acordar e descobrir que estamos desatualizados e não conseguimos acompanhar o mundo. A cultura humana está evoluindo rápido.”

Edan faz um gesto desdenhoso. “Eu estava lá quando os humanos celebraram o nascimento de seu tão chamado salvador. Eu estarei lá quando ninguém se lembrar nem de uma versão borrada do evento.” Ele se vira e sai caminhando para a multidão, sacudindo sua cabeça com a longa juba cinzenta que ele chama de penteado.

Coçando minha cabeça, eu procuro entre as pessoas festejantes por alguém para se ter uma conversa decente. O clã celebra todo solstício de inverno como uma família toda. Ao invés de cuidar de seus próprios assuntos, todos se reúnem na mansão principal para tomar parte nas festividades.

Acho que posso ceder um dia do ano se isso faz o resto da família feliz. Não faz sentido brigar por isso. Afinal, eu sou apenas o quinto filho. Indo até minha irmãzinha, Maria, eu a engajo em uma discussão sobre a nova tecnologia de foguetes que está sendo desenvolvida pelos alemães. É divertido como esses humanos aparecem com os mais estranhos conceitos em tempos de guerra.

É claro, foguetes não são um conceito totalmente novo, mas o legal é que eles são os primeiros que realmente os fizeram funcionar. Totalmente sem magia.

Nós falamos por um pouco e o tempo voa enquanto trocamos de assuntos. É uma hora depois quando eu tenho que me sentar por me sentir sonolento. O vinho deve ter me atingido. Eu realmente bebi tanto assim?

Isso é quando os gritos começam. Eu olho para cima para a fonte da comoção, mas metade dos festeiros parece ter o mesmo problema que eu. E então meu pai caminha ao meio do salão como um bêbado e cai, revelando uma faca em suas costas. Eu tento me levantar, mas meu corpo não obedece e escorrega para fora da cadeira.

Enquanto a escuridão se aproxima, vejo Kelvyn seguindo meu pai, enquanto seus seguidores mais próximos subjugam os poucos membros da família principal que não estão drogados. Ele se curva e puxa a faca das costas do meu pai. Levantando a cabeça do meu pai, ele põe a faca em sua garganta e começa a cortá-la com um lento movimento serrado.

Eu quero gritar ao porco gordo. Em uma luta justa ele nunca teria uma chance contra o meu pai. Não, isso não é nem uma luta. É simples assassínio.

O sangue flui como uma fonte, deixando a cena irreal. Eu quero pular de pé e parar tudo isso, mas sou um prisioneiro dentro do meu próprio corpo. Escaneando a cena com meus olhos, descubro que todos da família principal foram derrubados. Minha mãe não estava em lugar nenhum. Até mesmo alguns membros da família filial estão no chão. Provavelmente aqueles que não eram confiáveis o bastante para se juntar ao plano. O osso da coluna do meu pai se mostra problemático, mas após alguns segundos a lâmina encontra o tecido macio entre os ossos e a cabeça do meu pai é arrancada.

Então a escuridão se fecha.

Algo frio espirra por mim.

“Acorde! Pequeno Magnus. Nós temos perguntas a fazer.”

Piscando, assimilo a sala escura e reconheço meu primo, Leigh. Ele é uma versão mais atlética de seu pai, Kelvyn. Eu nunca gostei do bastardo. “O que foi?”

Ele me acerta com as costas da mão usando toda sua força, mas eu não caio da cadeira. Correntes de ferro me prendem a ela. Runas azuis em minhas algemas acendem quando eu tento usar minha magia. Eu sinto minha magia sendo gasta, mas não há efeito.

Leigh afunda seus dedos em meu cabelo e puxa minha cabeça para trás. “Não desperdice seu tempo. Eu finalmente consegui ter uma pequena conversa com você.” Ele dá um puxão em meu cabelo. “Então agora, você me dará a senha para operar o Véu.”

“Eu não sei de senha nenhuma. Esqueceu que sou apenas um quinto filho?” Eu cuspo sangue em seu rosto.

Ele dá um passo para trás e caminha para fora do meu campo de visão, retornando com um par de alicates. Quando ele vai à minha mão, percebo o que ele pretende fazer. Eu tento fechar minha mão em um punho, mas isso não o impede de agarrar meu dedo mínimo. Não interessado em ter perguntas respondidas, ele torce até que a dor fique insuportável. Eu berro, então algo estala e eu apago.

Quando recupero a consciência é a mesma questão. “Me diga a senha para o Véu.”

Ele olha para meu mínimo. Está inteiro de novo. Eu não sou tão velho e não estava certo se curaria corretamente sem posicionar o osso. Nem mesmo já estive alguma vez em uma luta de verdade, ou fui interrogado. Como membro dos Bathomeus eu tive de aguentar um monte de treinamentos cruéis e até quebrei minha perna uma vez. Doeu, mas aconteceu rápido. É bastante diferente quando é feito lenta e deliberadamente.

“Não me ignore seu bastardo surdo.” Leigh puxa uma faca e me esfaqueia em minhas entranhas. Simples assim! Eu ainda estou tentando compreender as razões por suas ações quando ele torce a faca. Sinto o refluxo pela dor e sangue sobe por minha garganta. Eu engasgo em meu próprio sangue. Ele rosna: “Oh, nós teremos muita diversão.”

Quando abro meus olhos, ele está lá. Dessa vez com um martelo. Ele faz a mesma pergunta que antes e eu nego qualquer conhecimento de uma senha. Então ele usa o martelo em meus joelhos e então na minha mandíbula.

Eu começo a amaldiçoar o fato de que nós, Antigos, podemos nos curar de tanto assim.

Após um tempo se torna uma rotina acordar e aguentar sua tortura. Eu nem mesmo sei se é dia ou noite, ou com que frequência desmaio. Parece uma eternidade, mas talvez semanas depois, algo está diferente quando acordo. Não é só Leigh quem está no quarto. Kelvyn também está lá.

Eu lhe dou um sorriso zombeteiro. “Bastardo” falo ríspido com minha garganta seca. Leigh não se incomoda em me alimentar o bastante.

Kelvyn caminha até mim e se curva. “Eu posso encerrar isso, sabe? Tudo o que você tem que fazer é me dizer a senha para o Véu. Seu pai o trancou de alguma forma quando morreu. Originalmente nós pensamos que Fiacre pudesse controlar o Véu uma vez que ele tivesse partido. Ela é irmã dele, afinal de contas. Mas infelizmente ela não pode. Parece que tem algo a ver com sua linhagem na árvore familiar.”

Eu bufo: “Apenas faça um novo Véu, idiota.”

Ele cerra suas mandíbulas. “O Véu está conectado a esta berlinde de realidade. Então quando nos revoltamos, todas as portas se fecharam e fomos trancados do lado de dentro. É em seu melhor interesse nos dizer como sair. Ou você quer ficar trancado aqui para sempre?”

Eu dou um puxão em minhas correntes. “Então tudo o que tenho que fazer é esperar.”

A face de Kelvyn se torna inexpressiva. “Os outros também disseram isso. Mas não duraram muito após eu começar a lhes oferecer visitas pessoais. Acredite em mim, estar aos cuidados do Leigh é na verdade um feriado. Você é o último até eu pôr uma outra teoria minha em teste.”

O último? “O que você quer dizer?”

“Que uma vez que sua árvore família tenha desaparecido, o controle do Véu passará para Fiacre. Os outros da família principal eram tão teimosos quanto você, mas não tinham a resiliência para suportá-la. Temo que todos eles já tenham perecido. Então darei a Leigh mais três dias para obter a resposta e então acabarei com isso. Ou você nos diz a senha, ou testamos minha teoria.” Ele se vira e deixa a câmara sombria.

Leigh arreganha um sorriso e se aproxima de mim com uma ferramenta parecida com um gancho. Enquanto ele trabalha, faço meu melhor para fugir para outro lugar em minha mente.

Dessa vez eu não acordo com água fria. Alguém está esbofeteando minha bochecha. “Acorde! Ele está vindo!”

Ao abrir meus olhos, encontro a tia Fiacre curvada sobre mim. Ela está mexendo desajeitadamente em minhas algemas com uma chave em sua mão. Vasculhando a sala, não encontro mais ninguém. Nada de Leigh. Isso é um truque? Eles estão me deixando escapar para abrir a berlinde de realidade para eles?

Eu pisco enquanto Fiacre abre a algema em minha mão esquerda. Aparentemente minhas pernas já estão livres. Por que ela está fazendo isso se está do lado deles? Eles obviamente pensaram que ela lhes ajudaria. Caso contrário não teriam orquestrado um plano desses. Eu sinto raiva se acumulando dentro de mim. Raiva pela traição. Raiva pela ridiculosidade disso tudo. Raiva pela dor.

Minha tia abre a última algema.

Eu a alcanço e parto seu pescoço, e ela de fato consegue parecer surpresa. O que ela esperava?

Enquanto seu corpo desaba ao chão, a porta para a câmara se abre e Leigh entra na sala, surpresa por toda sua face. Uma neblina de vermelhidão se afunda sobre minha visão e eu rujo enquanto o ódio me toma completamente. Eu canalizo minha magia pela primeira vez em semanas. Meu grito não é humano, não é como nada que pertença à terra.

Leigh levanta ambas as mãos para erigir um escudo, mas minhas mãos estão cobertas em energia e eu passo diretamente por sua barreira. Eu tento arrancar sua cara. Ele é mais velho e mais rápido, pegando minhas mãos com as dele. Rindo, ele afasta minhas mãos à força e para longe dele. Isso é quando eu percebo que Magnus não é um Antigo. Magnus é apenas uma pele. Algo que a coisa que eu realmente sou mostra ao mundo. Essa raiva e fúria antiga é o verdadeiro eu.

Revelando meus próprios dentes, me inclino para frente e mastigo sua garganta. A coisa que eu sou me diz que uma batalha não é decidida por habilidade ou poder. É decidida pelo simples fato de quem é o mais perverso.

Quando ele me solta, minhas mãos mergulham em seus lados. Eu arranho e rasgo até seu peito ser uma arruinada caverna vazia, então prossigo, procurando pelo próximo.

 

***Caríntia***

***Sely***

 

Magnus se estende para seu suco de laranja e o despeja por sua garganta. Tendo feito isso, ele abaixa o copo de maneira extraordinariamente cuidadosa. Como se custasse muito esforço para não o esmagar.

“E então eu matei todos eles.”

Ele suspira como se um peso se fosse. “Se me der licença? Eu de fato tenho coisas a fazer. Como jogar e usar outros meios para me distrair.” Ele se levanta e deixa a sala.

Annia olha para seu prato. “Eu não estou mais com fome.”

Alcançando meu pescoço, eu o massageio porque ele enrijeceu durante a história. “Admito que fazer tal pergunta não tenha sido a ideia mais brilhante que já tive.”

De repente Oilell está ao meu lado e dá um tapinha em meu ombro. “Mas essa foi a mais longa das vezes que ele já falou sobre aquele evento particular. Até agora sempre havia sido um tabu falar disso, até comigo. Ele deve gostar bastante de você.”

Eu tento sorrir. “Não quero me intrometer, mas por que você fica neste lugar, Oilell? Não é difícil com uma história dessas?”

A brownie dá de ombros: “Eu preciso. Minha raça obtém sua força das pessoas com as quais nos vinculamos. Quanto mais forte nosso mestre, mais forte somos. Eu estou vinculada à linhagem Bathomeus. Apesar da maior parte de nós, brownies, se esconder nas sombras atualmente e servir os humanos como espíritos domésticos. É muito mais fácil sobreviver.”

Eu levanto uma sobrancelha. “Então vocês são muito bons em se esconder? É essa a razão pela qual todos pensam que sua raça está extinta?”

Ela sorri, mostrando seus dentes dourados. “Nós somos de fato muito bons em nos esconder e fugir. Para minha vergonha, devo admitir que eu só retornei para a mansão quando tudo acabou. É por isso que o Mestre prefere não ver meu rosto. Acho que algo dentro dele quebrou naquela câmara.”

Então ela muda o assunto: “Você tem que conhecer os outros servos da casa! E eu te mostrarei os arredores da mansão e os jardins. Caso contrário, você pode não encontrar seu caminho por aí. Pode parecer um labirinto se você não for familiar com o lugar.” Ela dispara para a porta e a abre, esperando que a sigamos.


Tradução: Batata Yacon   |   Revisão: Sr. Delongas


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5 ideias sobre “LOS – Capítulo 11

  1. DELONGAS SENHOR

    Eu percebi, enquanto isso eu ficava chamando mentalmente ele de carinha emburrado, maconheiro, doidão lá, etc. Bons tempos, só não gosto do sobrenome, mas até que gostei do nome.

    Curtido por 3 pessoas

    Resposta

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