LOS – Capítulo 08

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Capítulo 08:

~Restringidas~

 


 

“Eles perceberam que sua natureza nunca permitiria que criassem uma sociedade unificada. Então levantaram os Véus.”

— Uma memória dos Antigos.

 


 

***Caríntia***

***Sely***

 

“Ainda não consigo acreditar que nós escapamos. Ele era tão rápido. Eu nunca pensei que nós escaparíamos.” Annia caminha pela rua, ficando dois passos na minha frente. Levou um tempo para ela recuperar sua calma após nossa fuga milagrosa.

Não direi a ela que ele permitiu que nós escapássemos. A meio ponto pela floresta, ele simplesmente parou de nos perseguir. Simples assim. Quase como se ele tivesse pensado que tinha coisas melhores para fazer. “Tá tudo bem. O véu está apenas a alguns metros de distância e então nós estaremos fora daqui.” Tenho que tranquilizá-la, só para tranquilizar a mim mesma.

Não tem como eu poder confrontar o que aconteceu lá na capela e Annia não me perguntou sobre isso. Eu amo minha irmã por me dar o espaço que preciso. Quando nós deixamos a floresta, ela parou um carro e nós conseguimos algumas roupas novas para mim já que eu não parecia apresentável. Na verdade, os donos do carro perguntaram se fui vítima de algum crime hediondo, mesmo estando enfeitiçados.

Não quero saber como me parecia.

“Ali está!” Annia aponta para a crista da montanha para qual o caminho está nos levando. Em minha visão-mágica eu posso ver um brilho azul etéreo se elevando do chão e desaparecendo no céu. O véu é um campo de energia que é usado por Antigos para proteger seus territórios contra intrusos. Criar um não é difícil, mas leva tempo e muita energia.

Annia corre à frente de mim e tira o Hórus, um amuleto antigo que foi passado pela linhagem da minha mãe. Ele permite ignorar o véu ao sincronizar a energia dos portadores com o Véu. Annia passa através do Véu e está do outro lado. Então ela se vira e joga o Hórus para mim e o pego.

O Véu não reage à sobrenaturais ou objetos inanimados. Só Antigos são afetados e pessoas sem magia não são nem capazes de ver o Véu.

Sorrindo, caminho adiante. De repente o Véu acende e bato de cara em uma parede. Tropeço para trás e olho para o véu, estupefata. Annia não está menos chocada. Fervilhando, tento de novo com o mesmo resultado. Então bato no véu e sou recompensada com um choque elétrico. Gemo e sacudo minha mão.

Annia estende suas mãos. “Me dê o amuleto. Talvez esteja gasto?”

Mamãe nunca disse que o Hórus era de uso limitado. Faço como dito e jogo o amuleto para ela, horrorizada com o pensamento de que nós estamos presas em lados opostos do Véu. Então ela volta para o meu lado sem problemas. Entretanto, quando tento o Véu não me deixa passar. “Eu poderia tentar forçar caminho através dele.”

“Você tá doida? O Véu te reconhece apesar do amuleto, então ele deve estar ajustado especificamente para você. Se tentar forçar ele a abrir à força, você muito provavelmente vai morrer. Annia aperta o amuleto. “Mas como isso é possível? Ele precisaria do seu sangue para fazer isso.”

Eu estremeço e levo a mão em direção a área da minha clavícula onde fui cortada durante a luta. “Se for sangue, então acho que havia o bastante na capela.” Me sinto atordoada. Por que ele fez isso? Não, ele nunca pretendeu nos deixar ir. Ele parou de nos seguir porque sabia que eu não poderia escapar de qualquer maneira.

Annia pega minha mão e me puxa de volta pelo passe de montanha abaixo. “Nós temos que ficar aqui.”

Eu paro. “Não, nós não. Você tem que seguir sem mim.”

Annia arfa em indignação. “Eu nunca partiria sem você. E como você acha que devo me virar sem você? Ahem, talvez não seja uma ideia tão ruim afinal de contas. Nós podíamos ficar aqui.”

Eu pisco e puxo minha mão dela. “Me desculpe? Este território não é exatamente grande. Não haveria maneira nenhuma de evitá-lo para sempre.”

Minha irmãzinha cruza seus braços na frente de seu peito e aperta seus olhos para mim, imitando perfeitamente nossa mãe. “Isso me traz de volta à questão do que aconteceu lá atrás. Pensei que você não pudesse se unir dessa maneira com homens! Ao invés disso você revira seus olhos pra ele e arfa com a visão dele espancando nossos irmãos e primos. Não que eles não merecessem.”

De repente me sinto como uma criancinha, o que é totalmente errado já que sou a mais velha. “Eu não consigo me lembrar de nada.”

Ela bufa. “Você não consegue lembrar que apertou os botões dele? Ou você não consegue lembrar que vocês dois fizeram aquilo cinco vezes como coelhos?

“Cinco vezes!?” exclamo.

“Yep, você quer uma descrição detalhada de como ele fez você se curvar na tumba? Eu não sabia que você é flexível assim.”

É por isso que me sinto tão dolorida. “Ainda é impossível! Eu alterei o feitiço com o qual o chefe do clã tentou me escravizar. Eu não posso sentir ou ficar assim por qualquer homem. Tenho cento e oitenta e quatro anos e desde que aquele feitiço foi colocado em mim, nunca me comportei de tal maneira.”

Annia estufa suas bochechas, pensando. “Isso foi muito antes da minha época e você nunca explicou os detalhes para mim. Você deveria retificar isso agora, talvez isso possa responder nosso pequeno mistério.”

Balanço minha mão pelo ar. “Não há muito na história. O chefe do clã queria me casar com algum palhaço britânico, exatamente como ele pretendia com você. Eu recusei, então ele decidiu me vincular ao homem à força, me fazendo essencialmente algum tipo de escrava-sexual. Ouvi dos preparativos deles para o feitiço e alterei a matriz tanto quanto pude. Afinal de contas, eu não tinha ninguém que fosse me ajudar.

Annia levanta uma sobrancelha. “Então você alterou o feitiço. Como exatamente você o alterou?”

Estudo o chão e chuto uma pedrinha que estava me ofendendo. “Eu elevei as apostas e cortei a parte de escravidão, mas a parte que acentuava meus sentimentos era uma parte básica do feitiço. Não tinha como eles não perceberem se eu mudasse isso. Ainda estava com medo de que eles conseguissem de alguma forma me forçar em algo. Então adicionei algumas condições para quem pode ser meu parceiro. Defini as condições em níveis tão altos que ninguém jamais poderia alcançá-las.”

Suspirando, continuo: “Você mesma sabe que os efeitos de matrizes de feitiço caóticas assim não podem ser previstas. Meu parceiro tem que ser forte o bastante para me proteger do meu clã. Ele tem que ser legal e bonito e me respeitar por quem eu sou. Ele tem que ser pelo menos tão forte quanto eu e um bom homem e amante. Ele tem que sentir a mesma coisa que sinto por ele. Em resumo, um cavaleiro numa armadura brilhante.

Annia franze seus lábios. “Isso de fato explica porque você nunca foi fodida.”

Ranjo meus dentes. “Eu tinha dezesseis. E transei muitas vezes nos meus cento e oitenta anos. Várias vezes. Não sou uma donzela murcha. Nas épocas passadas, pessoas eram muito menos puritanas com suas relações sexuais. Eu simplesmente nunca acabei com um parceiro duradouro. Minha maldição não permite isso.”

“Então aquele homem atendeu suas exigências insanas, pelo menos parcialmente, o que multiplicou seus sentimentos e te mandou além dos seus limites. Ele te protegeu do seu clã e ele mostrou que pode lidar com você.” Annia assente. “É, deve ter sido isso. Talvez você possa se aliar com ele e nos conseguir um lugar no território dele. Tenho certeza que ele aprecia o que você tem a oferecer, homens são todos iguais. E nós podemos sempre pagar ele com um dos artefatos.”

Fico pasma com ela. “Você quer me vender para viver neste território degradado?”

Ela dá de ombros. “Não é uma das grandes cidades, mas há tudo que precisamos. E parece que nós temos espaço mais que o suficiente. Não me olhe assim. Parece ser uma opção melhor que ir para Roma e esperar que os artefatos sejam o bastante para nos comprar nossa autonomia. É provável que os Bacellos simplesmente tomem os artefatos e nos entreguem à nossa família.”

É igualmente provável que o lorde deste território faça isso. Ele realmente arriscaria enfurecer os Hammons? Ele está sozinho afinal de contas. Encaro a Annia  fixamente até ela ficar pelo menos uma cabeça mais baixa. “Okay. Nós vamos voltar e tentar ganhar a vida até ele aparecer. Então nós negociamos.” Lentamente, caminho de volta pela vereda com a Annia me seguindo.

“Então, como vamos fazer isso? Não é como se nós tivéssemos um endereço.” pergunta Annia

Dou de ombros. “Nós temos que ir para a única pessoa que conhecemos neste buraco infernal.”

Uma hora mais tarde nós estamos de volta no escritório da vampira. Havia começado a nevar, então nós não encontramos ela na área de estacionamento e fomos levadas para seu escritório ao invés disso. Eva nos encara com uma testa franzida, claramente intrigada com o fato de que nós estávamos de volta. Ela está sentada atrás de uma mesa de escritório conosco a confrontando do outro lado.

“Nós precisamos de um quarto.” exponho nossas necessidades.

Ela inclina sua cabeça, claramente em conflito à respeito do que fazer. “Isso é estranho, veja, o lorde ligou e disse para não ajudar, e cito, ‘as vadias de qualquer maneira’. Ele foi bastante inflexível neste ponto.”

O quê? Por que ele faria isso? “Mas ele não disse nada mais? Como nos apreender?”

A vampira sacode sua cabeça. “Não, parece que ele quer que vocês sofram nas ruas. Tenho certeza que ele ligou para todos que ganham a vida acomodando sobrenaturais.”

Olho para Annia que responde com uma expressão igualmente chocada. Então retorno minha atenção para a vampira que se chama Eva. “Mas ele nos trancou dentro do território dele. Ele não tem qualquer intenção de falar com a gente?”

Eva coloca suas longas, pernas macias na mesa, que seria ofensivo se nós fôssemos homens. “Sinto muito. Ele é uma pessoa reclusa que se isola. Eu nem sei onde ele mora ou o que passa pela mente dele, apesar de às vezes eu poder dar palpites muito bons nessa área. Ninguém conhece ele muito bem. Os nativos deste território apenas sabem ficar fora do caminho dele.”

Me levanto e ponho ambas as mãos na mesa, me inclinando sobre a Eva. “Deixarei as coisas simples. Você nos dá um quarto e em troca eu não queimo este lugar às cinzas. E quando seu lorde aparecer, farei meu melhor para fazer você parecer a vítima.”

Deve ter tido algo em minha expressão já que Eva desvia seus olhos, seus lábios trêmulos. Então ela olha para Annia. Provavelmente já que ela parece mais acessível. “Tenho um excelente quarto para vocês duas. E uma neta que tem quase a sua idade. O que você acha de conhecê-la?”

 

***Caríntia***

 

Jogar MtG online é tão retardado. Como pode uma companhia como a deles não ter uma versão online aceitável? Eu só tenho a escolha entre a versão online que se parece com uma versão desatualizada de paciência dos anos noventa, ou um Magic Duels bugado da Steam que não têm nem todas as cartas. Jogar a coisa real ainda é a única opção satisfatória.

Meu oponente joga o Anjo do Pacto de Morte. O cabelo negro da mulher na arte de capa me lembra dela. Minha bela… Fecho o jogo e desligo o pc.

Não posso nem jogar sem pensar nela. E que diabo montou em mim pra trancar ela dentro do meu território. Deve ter uma maneira de tirar essa mulher do meu sistema. Talvez eu deva visitar a Eva a aceitar sua oferta? Não, as duas irmãs estão se escondendo no negócio dela. Elas devem tê-la forçado a lhes dar acomodações.

Sem desejar isso, uma imagem da atraente Sely lampeja pela minha mente. Ela era tão macia e amável. Como posso pensar em qualquer outra mulher se alguém como ela existe? Eu quero que ela seja minha, mas não sem castigá-la um pouco. Ela é a causa de todo o caos.

E um daqueles cuzões escapou. Me custou um dia para pôr em ordem todas as partes de corpos e pude apenas montar seis corpos. Algumas horas depois senti o último deixar meu território. Ele certamente vai reportar de volta em seu clã e então terei um agradável conjunto de inimigos nas minhas mãos. Maravilha.

Meus olhos percorrem a sala enquanto penso em uma maneira de aliviar a tensão crescente em meu corpo. Então percebo o apanhador de sonhos que ainda está pendurado na varanda. E há também um pouco do sangue da Sely recolhido. Franzindo meus lábios, me ponho de pé, a forma perfeita de vingança em minha mente.


 

Tradução: Batata Yacon   |   Revisão: Sr. Delongas

 


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