LOS – Capítulo 01

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Capítulo 1:

~Sozinho~

 


 

“Eles eram poderosos, ainda assim lutaram arduamente para encontrar seus propósitos. Humanos os chamavam de deuses. Eles alcançaram os céus, e ainda assim caíram aos recantos mais sombrios. Lá, eles encontraram suas verdadeiras naturezas. Eles não existiam para criar e destruir. Seus dons pressagiavam um destino muito mais cruel. Eles eram os inimigos dos deuses.”

— Uma memória dos Antigos.

***Caríntia***

 

Eu marcho adiante, cuidadosamente pondo um pé após o outro no gelo. Este inverno foi inesperadamente frio, e assim, o enorme lago congelou pela primeira vez em anos. As luzes da cidade e vários vilarejos ao redor do lago são enfraquecidas pelo nevoeiro pesado. Lentamente, a névoa está cristalizando em belos pedaços de gelo por todo o lago, preparando uma maravilhosa cena uma vez que o amanhecer chegasse. Mas no momento ainda estava escuro. O som do meu pé esmagando gelo é o único barulho por aqui.

Eu odeio o clima, já me deixa deprimido. Infelizmente, é uma ocorrência regular neste vale em basicamente todas as épocas do ano, exceto pelo verão. As montanhas ao redor do lago são uma proteção natural, o que também impede que a névoa disperse. Então isso significa que nós temos clima brumoso por metade do tempo. Ou pelo menos névoa alta se não for realmente assentada ao chão. Pelo menos o clima torna improvável que qualquer um possa ver o que eu estou fazendo aqui no meio da noite.

Arquejando, eu puxo meu largo pacote um pouco mais. A luz da cidade é meu único ponto de navegação, mas eu estou bem certo de que estou no caminho certo. Meu objetivo é um buraco que é mantido livre de gelo por pescadores. Eu tenho certas razões para visitá-lo de tempos em tempos. Há a possibilidade de se livrar do meu lixo em outro local, mas aquele lugar pertence a mergulhadores. E eles também tendem a perseguir seus hobbies em horários inseguros, então este lugar é minha melhor opção se eu não quiser ser interrompido.

É claro, eu poderia fazer um novo buraco aqui e agora, mas encobri-lo depois seria problemático. Então eu aguento a tarefa de puxar meu pacote pelo gelo. Está preso com uma grossa corda que eu envolvi ao redor da minha cintura para facilitar o esforço de puxar o peso. A princípio eu pensei que puxar a coisa pelo gelo seria fácil, mas os malditos pedaços de gelo deixam isso mais difícil do que deveria ser.

Vários minutos e um monte de trituração depois, eu finalmente chego ao meu destino. O buraco é cerca de um metro em diâmetro e já tem uma fina crosta de gelo. Isso provavelmente significa que os pescadores foram para casa mais cedo hoje. Grunhindo, eu uso minha bota para esmagar o gelo e silenciosamente ofereço minha gratidão à invenção da Gore-Tex. Acabar molhado agora seria o ponto alto final de um dia de merda.

Concluído o meu trabalho, eu sossego e rio com a ideia de ser descoberto agora. Um homem em trajes pretos, e um sobretudo preto, com um estranho, branco pacote que ele aparentemente trouxe à pé todo o caminho aqui vindo da margem.

Eu ponho a mão no bolso e pego meus cigarros. Normalmente eu não fumo. Na verdade eu nunca fumo. Mas alguns dias são simplesmente tão merdas que eu preciso de cannabis para relaxar um pouco. Caso contrário eu posso matar alguém e eu quero evitar isso. O cara que me fornece a coisa me garantiu que os cigarros são cem por cento naturais. Até o papel o envolvendo é feito de folhas de chá.

Após um minuto de acalmar minha mente, eu puxo as bombinhas e acendo a primeira com o cigarro. E buraco adentro ela vai. A água borbulha um pouco até a bombinha explodir dentro d’água com um quase imperceptível ‘baque’.

Totalmente desinteressante, mas completa a tarefa. Algumas vezes eu realmente não entendo humanos. Para proibir algo tão essencial à vida como bombinhas. Eu entendo armas e drogas. Há certos indivíduos realmente burros por aí. Quanto menos possibilidades eles tiverem de pôr suas mãos em coisas prejudiciais, melhor.

Mas bombinhas? O que eles farão depois? Nos dizer para usar facas de cozinha apenas com travas de segurança? Eu estou realmente feliz que eu guardei bombinhas o bastante para durar por uma vida. As poucas que eu preciso para invocar meu criado não contabilizam muita coisa. Será um longo tempo no futuro até eu ter que encontrar alguma outra coisa que o irrite o bastante para investigar a fonte da perturbação.

Eu estou prestes a jogar a décima primeira bombinha quando uma grande, enorme cabeça surge da água. O homem no lago abre sua boca, correção: mandíbula, exalando água e revelando várias fileiras de dentes como agulhas. Sem hesitação, eu jogo a bombinha bem por sua garganta abaixo. Ele engasga e engole, o que é seguido por sua garganta estufando com se pertencesse a um sapo. Tossindo, ele vomita os restos da bombinha e baforadas de fumaça.

Quando ele finalmente termina, me olha de maneira acusadora com seus olhos de peixe morto. “Por que você polui meu lago? Eu te disse que a água fica com gosto ruim por dias quando você faz isso! E o barulho! Tenha alguma empatia por formas de vida marinhas!”

Eu não respondo e o encaro, estabelecendo o ponto de que sou eu aquele a quem se deve prestar respeito. Há poder em dizer nada.

Ele alarga as narinas de seu grande nariz e se lança fora d’água, revelando seu corpo como de um anão que está coberto por vestes de algas. Eu suponho que ele pareça mais humano que o membro regular da comunidade paranormal. Se ele pusesse por roupas decentes e mantivesse sua boca fechada, ele passaria como um homem pequeno com síndrome de Down. As roupas esconderiam o fato de que o resto de seu corpo parece com um inchado cadáver afogado.

Após uma manobra como a de um pinguim de aterrissar na minha frente e se pôr de pé, ele se dirige a mim de novo, “Apenas me diga o que você quer. As crianças estão famintas e minha esposa está me esperando em casa.”

Ele sempre se gaba sobre o quão rápido e gracioso ele é na água, mas quando eu o vejo em terra, isso é difícil de se acreditar. Eu sopro um anel de fumaça, intencionalmente na direção dele, e aponto o cigarro para o pacote. “Trabalho de descarte.”

O homem no lago retrai seus lábios, revelando seus dentes. Após tossir mais água, ele olha para o pacote. “Nem vem! Eu só aceito cadáveres. Esse daí ainda está vivo. E você deveria parar de fumar essa coisa. Isso enfraquece a mente. Seus pais não te ensinaram direito?”

Na verdade ensinaram. O fato de que eu estou fumando essa coisa é a única razão pela qual você ainda está vivo. Caso contrário eu teria rasgado sua gargante na sua primeira sentença. Yeah, na verdade eu estou feliz que eu ainda me sinto ‘brisado’. Tudo fica bem, não há razão para estuprar e assassinar. Okay, só neste caso, assassinato é a opção preferível.

E ele é útil. Se eu matar ele, eu terei que encontrar um substituto. Esforço demais.

Eu queria que cannabis tivesse o mesmo efeito em mim como tem em humanos normais. Tristemente, tudo que eu recebo é um estado, de certa forma, relaxado. Ela me ajuda bastante a lidar com outros paranormais. O desejo de rasgá-los em pedaços e derramar suas entranhas é menos forte.

“Okay, Paul.”

“Meu nome não é  Paul. É-” Ele arregala sua boca e produz um estranho, som gorgolejante.

Eu jogo o resto do cigarro no lago, muito para o aborrecimento do homem no lago. Usar o nome real dele é trabalho demais. Eu suponho que possa reproduzir o som se eu tivesse um copo d’água em mãos.

Enfiando a mão no meu casaco, eu retiro minha confiável Glock 17 e enrosco o silenciador. Então eu descarrego metade do pente no pacote espasmante. Os movimentos param e fluido vermelho começa a escorrer pelo pano. Eu devia ter feito isso antes do Paul ter chegado. Está morto. Leve. Eu não quero ver isso de novo tão cedo.”

O homem no lago sacode sua cabeça. “Cheira mal. O que você matou dessa vez? Um Zumbi? Necromante? É definitivamente um desmorto. Algo assim não entra no meu lago.”

Eu sibilo e miro a arma no sapo estúpido. Isso já está levando tempo demais. Eu poderia estar em casa agora e assistindo filmes. “Sapo estúpido. É um lich e eu não tenho nem o tempo para matar ele de novo e de novo até ele finalmente decidir ficar morto, nem eu quero acorrentar em algum lugar só pra ele vir atrás de mim quando se libertar.”

Me aproximando, eu balanço a pistola em frente ao rosto dele. “Nós temos um acordo. Ou você não se lembra de quando eu cuidei da invasão de kappas japoneses? Você prometeu se livrar do meu lixo.”

O sapo se eriça. “Eu pensei ter concordado com saborosos, corpos humanos. Não com problemáticas, carnes ambulantes.”

Um rosnado baixo escapa das profundezas da minha garganta. “De jeito nenhum que eu te alimentaria humanos. Ninguém se importa se um corpo humano for encontrado na cidade. Não vale nem o esforço de mover eles dali. Nosso acordo sempre significou cadáveres de sobrenaturais problemáticos.”

Ele olha para o cano da minha arma por vários longos momentos, então ele se vira e começa a empurrar o pacote em direção ao buraco. “Eu suponho  que não seja ruim ter uma fonte de carne renovável. Os pequeninos não vão se importar que ela tem gosto ruim.” Então ele cai na água, logo depois do pacote.

E se foi.

Me leva uma pequena eternidade para perceber que ele me deixou sozinho com uma trilha de sangue em direção ao buraco. Primeiro ele me provocou a atirar no lich, então ele me deixou para limpar a bagunça. Xingando, eu ando até beirada do buraco e esvazio o resto do pente na água, só para incomodá-lo. Eu tenho certeza que não há como acertá-lo. Ele provavelmente já está a meio caminho até seus girinos.

Eu me viro e olho para a trilha de sangue com uma expressão grave, então acendo outro cigarro. Não tem como eu deixar isso assim. Os humanos vão gritar ‘mordio’¹ se eles encontrarem isso. E o sangue já está congelando. Sem chances de raspar isso rápido manualmente. Não se eu não gastar a noite aqui.

Normalmente eu evitaria usar magia a todo custo. É como um farol para cada porra de sobrenat com pelo menos uma pequena fagulha de talento. E eu quero estar em força total a todo momento. Especialmente depois de hoje. Há definitivamente alguma coisa acontecendo na minha cidade e eu tenho uma sensação de que terei que aplicar a lei em breve. Então o que devo fazer?

Estar cansado é pior do que gastar um pouco de magia. E eu suponho que ninguém pode conectar isso a mim se eu usá-la aqui. Eu aceno minha mão e imagino uma lâmina de força, aspirando do poço de poder dentro de mim. Com uma raspada, eu limpo a trilha de sangue e despejo tudo na água.

Agora eu sou deixado com uma agradável superfície branca. Ainda suspeita e estranha, mas não é motivo para chamar as autoridades. Talvez os cristais de gelo cresçam o bastante para deixar isso menos suspeito até amanhã.

Pode-se apenas esperar.

Eu fico lá por mais alguns minutos, fumando e olhando para as luzes da cidade. Minha cidade. E alguém está tentando mexer com ela. Por algum motivo um monte de caçadores de fortuna estão jogando seus medos de lado e se lançando no meu território, procurando por alguém.

Hoje, eu tive que decapitar um grupo de vampiros que tentou estabelecer um novo ninho. Então teve um homem-urso estúpido que pensou que podia perambular pela minha cidade como um elefante por uma loja de porcelana. E para coroar o dia, um lich tentou tomar o cemitério central. Um dos fortes além disso.

É de se admirar que eu consegui manter mínima a exposição humana aos sobrenats. Uma velha teve um ataque cardíaco quando o homem-urso atravessou a parede do quarto dela. Eu dou de ombros. A velha teria morrido logo de qualquer jeito.

Meus pensamentos voltam ao lich. Ele falou sobre um grande prêmio se ele encontrasse alguém. Tristemente, não havia muito para tirar dele. A maior parte dos lichs são insanos por natureza. A mente dele já estava uma bagunça quando eu a separei e desmontei ele.

Contrário a crença popular, lichs são seres de carne e sangue. Um pouco ossudos e mais pele que carne, mas ainda seres que respiram. Eles só herdaram um dom particularmente forte para artes necromânticas, se transformando em seres quase imortais. Imortais, mas não imbatíveis. Eu atirei nele, cortei ele em pedaços, queimei ele às cinzas, e o desgraçado ainda se atreveu a voltar. Quando eu percebi que ele se remontaria lentamente não importando o que eu fizesse, eu coletei todas as peças dele e o trouxe aqui.

Normalmente minha cidade é agradável e quieta. Ela tem uma reputação de que elementos indisciplinados tendem a desaparecer.

Quem ou o que é importante o bastante para tantos sobrenaturais assim arriscarem suas peles? Lorde nenhum permitiria que eles revelassem a comunidade sobrenatural a humanos. Então por que todos esses mercenários estão fazendo alvoroço pela minha cidade? Bem, suponho que farei alguma investigação amanhã. Mas agora eu tenho que sair daqui ou algum sobrenat vai investigar meu uso anterior de magia.

Então eu terei que fazer mais limpeza.

Algumas vezes eu queria que tudo isso fosse só um resultado do meu consumo de ‘baseados’ alucinógenos. Yeah. Isso seria bom. Tudo o que aconteceu foi só uma alucinação! Eu sou só um humano mediano comum, com probleminhas humanos e pequenas ambições humanas.

Tristemente, não é assim. Cannabis é para mim, como cafeína para humanos. E eu tenho certas ambições. Quem quer que tenha a culpa por causar problemas vai descobrir isso logo logo.


Tradução: Batata Yacon   |   Revisão: Sr. Delongas


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Notas:

1. Mordio: Assumo ser algum regionalismo, pesquisei e não encontrei uma resposta definitiva, mas pelo contexto é possível entender que é uma expressão de surpresa com conotações negativas.

8 ideias sobre “LOS – Capítulo 01

  1. Batata Yacon Autor do post

    É tema gratuito. Não tenho muitas opções para trabalhar.
    Mas vou tentar fazer alguma coisa.

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